sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poemas dos Tempos - Portugal 62

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  DIAS DE SOFRIMENTO

Tantas noites mal dormidas
por causas que me são alheias
tão graves como as feridas
que tolhem as minhas ideias.

Tantas crianças mal nutridas
tantos doentes maltratados
tantos homens sem trabalho
tantas dúvidas acumuladas
tantos dias de sofrimento.

Os injustiçados vão acordar
vão escorraçar todos os medos
vão aproveitar as forças que restam
vão acender fogueiras nas praças
vão quebrar as últimas vidraças
   que os separam da gamela
vão partir o cenário da opulência
    que envergonha a nação
vão esbarrar a má governação
e para fugirem à vida sem adornos
vão pegar os bois pelos cornos.

Acabemos com o mendigar de justiça
e com a escumalha que a encobre
vilões usurpadores da dignidade
que nos humilham por decreto
e causam tanta infelicidade.

Sem desespero e sem raiva
vamos castigar os prevaricadores
vamos estrepitar os seus crimes
e todos os seus actos perversos:
Prometo que ao toque dos sinos
irei rasgar estes meus versos.

   Ermesinde, Maio de 2008

              Joaquim Coelho
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          PATRIÓTICO

O Sócrates já reconhece a dívida
e monta a sua teia diabólica!
perdeu a vergonha, esmorece
na engrenagem da robótica;
na praça pública diz que sim
aos ministros desentendidos
bonecos caros como o marfim
que medram nos passos perdidos.

Sem querer, fomos apanhados
na euforia do lauto fingimento
deprimidos com os desempregados
que vivem no descontentamento;
e os governantes no contraditório
vergastam o povo sem remorso
humilham a razão do falatório
e oferecem a esmola do tremoço.

No reino da miséria enredada
há sinais de vómito político,
muita verdade é censurada
para esconder o país paralítico;
pois fico atento a tal voragem
que nos continua a quilhar
sem ilusão, tenhamos coragem
para defender a Pátria e lutar.

  Joaquim Coelho



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    ESTAÇÃO DE SÃO BENTO

A noite estava iluminada e sem lua
quando te encontrei em São Bento
de rosto triste e olhar cintilante…
não pude encostar a minha cara à tua,
loucas ideias no pensamento
davam indícios de algo errante:
era o meu regresso à terra lusa
mas encontrei a tua vida difusa.

A afeição que nos fez alegres e felizes
esfumava-se como vaga quimera…
eu compreendo o que não me dizes
porque um desencontro não se espera,
mesmo com o coração enternecido
sofrendo como um mendigo de luto,
vi o ramo de rosas que te entreguei
ficar dolorosamente esmorecido
como esta saudade que desfruto
por cada momento que te amei.

Essa saudade é digna das rosas
que recebeste com indiferença…
vou tomar alguma precaução
contra os teus gestos patéticos
que destroçam toda a afeição
dos tempos dignos do amor
sem míticos contornos proféticos.

Resmunguei como um chacal!
abraçaste-me com intensidade
mas não dissipaste a minha dor…
o meu instinto de animal
respondeu com um beijo cruel
e resquícios leves de amor…
ficaste em grave aflição
ainda com a boca sabendo a fel
mendigaste o meu perdão.

Olhei-te com grave rigor…
devolvi a ingratidão no teu anel!
Chorosa, muito delicadamente,
absorveste a energia do calor…
choque incrível, suavemente
senti quanto era grande o amor
ao tomar o teu corpo sedento
dentro da estação de são Bento.

             Porto, Julho de 1963

    Joaquim Coelho
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