domingo, 13 de junho de 2010

Tempo Presente - Poemas Censurados


..... A CENSURA EM ACÇÃO
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Decorria o ano de 1972 quando o Poeta Egito Gonçalves, que já conhecia desde o Teatro Experimental do Porto (1958), me alertou para o Concurso de Poemas da Editorial Inova. Da vasta colecção de poemas (estados de alma) escritos durante os tempos da guerra em África, reuni 168 e elaborei um livro que deu entrada no concurso, título de capa "Tempo Presente, poemas da guerra e da paz".

Resposta a um pedido de colaboração numa Antologia de Poesia da Guerra Colonial da UC.

"Porque escrevo para descrever alguns estados de Alma?

Quando acompanhava o poeta Pedro Homem de Melo, na apreciação dos Ranchos Folclóricos que deveriam ser escolhidos para exibição na Televisão, deambulei por diversas terras do interior do Minho e das Beiras, onde fui sensibilizado para escrever algo em forma de poema. As paisagens e o ambiente rural desenvolveram em mim a mística da simplicidade dos camponeses e comecei a escrever versos para os Ranchos Folclóricos. O Professor Pedro Homem de Melo ficava horas e horas sentado à beira dos riachos a meditar; de quando em vez, também escrevia. Foi um tempo de grande aprendizagem, até porque este homem de Afife também foi meu professor.

Os primeiros poemas foram publicados na revista “Notícia” de Angola e com crítica bastante favorável. Outros foram publicados em Moçambique “Notícias da Beira”, “Diário de Moçambique”, onde tive problemas com a Censura; também publiquei no boletim militar “Boina Verde”.

Conhecia o poeta Egito Gonçalves de quando frequentámos o Teatro Experimental do Porto, no tempo em que era dirigido pelo grande António Pedro, entre 1957-60. Tempos depois de regressar da tropa (1969), falei-lhe nos poemas do diária de guerra e logo ele se prestou a colaborar na preparação de um livro com a finalidade de concorrer ao concurso da Editorial Inova. Decorria o ano de 1972. Escolhidos os poemas, organizou-se o livro que foi levado a concurso. Eram 168 poemas, quase todos sobre o tempo da guerra do ultramar. Dias antes da decisão do Júri, soube que a Comissão de Censura interferiu e a PIDE apreendeu o molho dos meus poemas. Nunca mais soube deles, porque ninguém arriscava dar-me informações. Fui aconselhado a ficar quieto. Até o “Prefácio” que abria o livro “Tempo Presente, poemas da guerra e da paz” foi confiscado. Junto fotocópia da capa e o texto do Prefácio.
Veio a revolução do 25 de Abril; tudo começou a mexer nos textos apreendidos. Também fui à procura, tendo encontrado 21 dos 168 poemas. Ao tempo não havia condições de fotocopiar e parte dos rascunhos estavam destruídos. Desanimei na divulgação, mas fui passando a limpo os rascunhos do diário que escrevi nas horas difíceis da vida no mato. Ainda não está tudo pronto, mas deu para organizar cinco livros de poemas e três de texto narrativo do ambiente no meio da guerra. Poemas, são cerca de 340 de Moçambique, mais de 270 de Angola e mais de 350 de Portugal.
Foram escritos por impulso e sem respeitar qualquer regra literária. São a expressão dos estados de alma nos momentos mais delicados das minhas vivências temporais. Há de tudo um pouco, desde ideias filosóficas, deslumbramento de amores, angústias e incertezas no meio da guerra e intervenção social. Quanto a publicação dos livros, nenhuma editora se mostra interessada em o fazer às suas custas.
Atendendo a que a guerra colonial me marcou para o resto da vida, tenho procurado mostrar que houve uma guerra que mexeu com a vida de mais de quatro milhões de bons portugueses (entre militares e respectivas famílias), matou cerca de dez mil, estropiou mais de trinta mil e traumatizou mais de duzentos mil. Enfim, aniquilou os sonhos de muitos homens duma geração. Coisa que tem sido escamoteada e desvirtuada pelos governantes e pelos decisores da sociedade, inclusive, pelos “senhores coronéis e generais” que ao tempo comandavam as tropas.
Grande parte dos escritos conhecidos sobre a guerra colonial são de gente que não teve intervenção directa e, como tal, não sofreu na pele os efeitos da guerra. Em alguns casos, de Manuel Alegre e António Lobo Antunes, aparecem afirmações que são autênticos insultos aos verdadeiros combatentes. Os antigos combatentes estão indignados com as mentiras e o modo redutor e infiel como são tratados. Até a RTP, no seu programa “A Guerra”, deu mais tempo de antena aos comandantes (muitos deles responsáveis por terem ficado abandonados mais de três mil mortos nas terras africanas) e aos mentores das chacinas que atingiram muitos civis portugueses, especialmente em Angola, não dando palavra àqueles que participaram nas mais complicadas operações de guerra. No meu caso, disponibilizei mais de três mil fotografias e prestei depoimento gravado durante 35 minutos e só apresentaram 50 segundos numa questão de reduzido interesse factual. Mas, alguns dos representantes da UPA-FNLA que aparecem na Televisão são bem conhecidos na arte de mandar massacrar inocentes indefesos no Norte de Angola; deviam ter sido julgados por genocídio e crimes de guerra.
Ora, como podem entender, não acredito que a recolha de temas sobre a “Poesia da Guerra Colonial” venha a interessar aos combatentes, já que tudo quanto se fez até ao presente foi para servir de amostragem e deleite duma pseudo-elite intelectual que nada tem feito em prol das necessidades dos combatentes traumatizados pelas vivências no meio da guerra. Mesmo assim, estou disponível para colaborar, desde que a Antologia de poesia da Guerra Colonial seja um instrumento de divulgação em homenagem aos antigos combatentes.

Valongo, Março de 2010

Joaquim Coelho"

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.... P R E F Á C I O

Não é minha intenção tomar atitudes que se possam confundir com a mística do classicismo na arte de escrever, porque a razão que motivou esta variedade de formas expressas não abarca qualquer escola nem sofisma; mas está subordinada a algumas influências correntes da análise retrospectiva da vida. As potencialidades mais notáveis encontrar-se-ão, sobretudo, num realismo luminoso - talvez afectado pelas diversas sensibilidades ocasionais - e na sequência de factores determinantes na busca da verdade e da razão daquela existência.
Compreendo que a poesia deve ser o fulcro entre a imagem apreendida e a verdade que a anima; pelo que, o conhecimento do facto leva o ser à emoção e deixa-o agir no sentido da concepção prática. Embora os poemas que se seguem não toquem assuntos de todos os dias, são concebidos com a necessária noção das realidades e fluíram de vivências temporais em torno dum ambiente de guerra e sensações emotivas que mexem com os mais profundos sentimentos de qualquer ser humano, limitando as elementares pretensões de focagem da Beleza sem deformar as coisas. Ao querer aprofundar com exactidão os mais marcantes factos encontrados num mundo em convulsões - onde cada ser procura furtar-se à sua própria imagem -, talvez me precipite nos caminhos tortuosos do culto da dúvida. Mas sentir-me-ei satisfeito se porventura essa dúvida não assentar na mente esclarecida daqueles que viveram a experiência das situações que procuro interpretar com a mais sincera realidade, apesar das mesmas terem alguns aspectos mais chocantes.
Ao desejar transmitir as imagens que as palavras possam descrever, fui tocado por uma profunda sensação de cumprir, com as melhores das intenções, a determinação de tantos personagens que a miserável guerra destruiu, mutilou ou aniquilou psiquicamente; alguns dos quais pereceram diante dos meus olhos. As provas de repúdio pela condição da guerra são evidentes na evolução da consciência dos militares; mas a contestação frontal sempre foi severamente reprimida pela engrenagem do sistema que limitava a reflexão profunda, mesmo aos mais corajosos:

4)-Agravada para 40 (quarenta) dias de prisão disciplinar agravada a pena aplicada pelo Comandante do BCP21 ao 1º. Cabo graduado Pára-quedistas nº. 138/59 - ..............., “por ter sido um dos organizadores de uma reunião de praças pára-quedistas, onde se discutiram assuntos e se tomaram decisões altamente atentatórias da disciplina e em seguida ter concordado com a apresentação ao Comando de uma exposição anónima onde se focavam as decisões tomadas na reunião efectuada.”
(Extracto da Ordem de Serviço nº. 153 do BCP21 - 1962, Angola)

Embora tenha a experiência de quase uma década na vida militar e vários anos no meio do operariado - factor que pode ser considerado relevante em paralelo com a vivência de muitos soldados “eventuais” que, por se encontrarem temporariamente nas fileiras, não deixaram de ser trabalhadores -, não me vejo possuidor da necessária vocação para interpretar cabalmente todas as cenas nem os remotos sentimentos dos meus companheiros. Porque acredito na reconversão dos conceitos, poderá ser susceptível de distorção a intenção que me conduz pelos caminhos da poesia ao cumprimento dum dever que me conforta.

Difundir a fraternal amizade,
Sem angústia ou tormento;
Sem dor e sem saudade
A perturbar o pensamento.

Entendo que a poesia, despida de contemplações abstractas, ainda transmite algo de reconfortante e mítico, quando ajuda a levantar o denso véu que encobre a nudez da natural condição e nos mostra a verdade da vida ofuscada pela injustiça e pelas degradantes condições de miséria que a reduz.
Sejamos nós mesmos, sem artifícios, a fomentar o renascimento das forças espaciais para a evolução da humanidade, na convicção de que a fraternidade universal é a solução capaz de terminar com todas as carências e misérias que enfermam a sociedade de consumo. Isso só será possível quando perdermos algumas das sensações deste conformismo que sufoca as melhores intenções e nos torna incapazes e medíocres. Para fugir à cobardia da mediocridade, cada um deverá contribuir com uma parte da reposição da justiça na edificação da paz com dignidade, até que esteja consolidada a sociedade fraterna que almejamos. Um esforço sério e a tenacidade de todos podem modificar as estruturas e minorar os efeitos nocivos das contradições desta sociedade. Os efeitos do desvelo que nos torna egoístas só agrava o isolamento dos homens, sufocando as suas naturais faculdades criativas e afectivas - espécie de condicionamento da mente.
As contradições resultantes da prática de um sistema social desumano e corrupto ameaçam a segurança e a paz nesta sociedade onde o consumismo começa a fazer as pessoas regredirem ao seu estado selvagem. E a instabilidade social resultante do desemprego, com graves situações de miséria, amesquinham a dignidade pessoal, e desumanizam os valores da vida, com recalcamentos sobre recalcamentos, até à explosão da raiva e do ódio. As injustiças acumuladas têm origem em situações de repressão camuflada ou descarada que vai marcando os explorados, destruindo as virtudes e os sentimentos superiores como a solidariedade, a compaixão e o amor. E, perdidas as características que dignificam o homem, surge a frustração e o desânimo, aumentando assim a tensão nas relações humanas. Neste declínio aparecem os impulsos emocionais primitivos que corrompem a paz e conduzem à guerra e à desagregação de todos os valores.
No decorrer das guerras do ultramar, há situações de perturbação mental e uma espécie de alienação colectiva nos grupos e unidades destacadas no interior das matas ou nos planaltos, resultante do isolamento e esquecimento a que são sujeitas pelo sistema. Mas no seio da maior parte das tropas de intervenção operacional (tropas de elite), também notei diversos indícios de perturbação. Não era estranho a esses sintomas o modo meticuloso e progressivo como o “sistema” cria barreiras de informadores e difunde ideias e factos contraditórios aos reais problemas da guerra - evolução técnica e logística do inimigo, estado de espírito dos militares portugueses perante a carência de meios para evacuação de feridos - e seus efeitos na coesão das tropas. Os exemplos de ocultação da verdade e de propagação dos ideais carunchosos do poder dirigem-se em vários sentidos e por diversas vias, mas sempre com o mesmo fundamento:

“O desvairamento que parece ter-se apossado dos responsáveis pela preservação da civilização ocidental, deixando livre curso à violência e ao aviltamento dos princípios fundamentais da convivência e da própria vida, vai criando um caos, no qual se desenvolvem forças que ameaçam subverter aqueles poucos que, como PORTUGAL, procuram opor-se à avalanche e preservar os princípios sagrados à luz dos quais foi escrita a história Pátria.”
(Extracto da exortação do Chefe do Estado-Maior da Força Aérea aos militares
em Angola, em 22/12/61).

“... para a uma só voz jurarem defender esses Símbolos Reais da Pátria mais que a própria vida; para, ainda, lado a lado, orarem ao “Senhor Deus dos Exércitos” pelos mortos: por aqueles “Bons e Leais Portugueses” que generosamente tudo sacrificaram e já nenhum louvor podem esperar deste mundo... senão o respeito e veneração de todos nós.”
(Extracto do discurso do Comandante da Base Aérea 9, de Luanda, em 19/6/62).

Os frutos da tenaz resistência contra a adversidade e a alienação encontram-se na corajosa acção libertadora empreendida por muitos militares que contornaram de forma inteligente o emaranhado de engrenagens que suportam o sistema já decadente; e também na personalidade de muitos outros portugueses mais conscientes da força da razão dinamizadora na propagação dos valores da paz como forma de bem universal.
Não foi sem confrontos de ideias e alguns perigos que se atingiram tais objectivos; mas as posições de firmeza contra a hierarquia servil eram motivo de desafio afrontoso cujos reflexos proliferavam como sementes em terra sã. Quantas vezes, para abafar as causas de frustração, ou esquecer a solidão amarga e desgastante, os menos corajosos seguiam pelos caminhos das bebedeiras para se libertarem dos malefícios da engrenagem. Mas, o perigo de confrontos mais amplos continuará neste mundo dito civilizado, enquanto alguns homens sem escrúpulos usarem poderosas armas para satisfazerem as filosofias retrógradas da guerra:

“É pela guerra que Deus exerce os seus julgamentos. É com a espada que castiga os pecadores.” (Velho Testamento).

Fazei a guerra a todos os que não acreditam em Allah.” (Maomet).

A guerra faz parte e completa a harmonia universal criada por Deus. Não
aceitar a guerra é ser contra Deus. A guerra é obra de Deus.”

(Teoria Teológica).

Em vez da filosofia da Paz:

“A guerra é uma manifestação de loucura.” (Erasmo).

“... todas as guerras têm o mesmo objectivo: roubar.” (Voltaire).

Podem suportar-se muitos males por amor à paz, mas se a escravatura e a barbárie são impostas em nome da paz, então essa paz será para o homem a pior das misérias.” (Spinoza).

Talvez seja necessário ultrapassar os estreitos limites do nosso horizonte e procurar a grande paz, a solução definitiva, a harmonia total...”. (Renan).

Para os que ainda estão sãos e que sabem amar os momentos de consentida solidão, há o deleite de pensar... e a reflexão estabelecerá a ponte até à escala de valores universais que devemos defender sem cair na frivolidade - equilíbrio harmonioso das vontades.

Porto, 17 de Março de 1973
O Autor,

Joaquim Coelho

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... TERRA MORTA

O sol inclina-se para além…
no mar azulado, do Quanza
e eu continuo aqui
á espera do destino…

desterrado para o norte
vou sem rota…
onde se enfrenta a morte!
O avião aguarda que eu entre
digo adeus… a nada
à terra morta!

Notícias… ficarão no mato
perdidas no seu recato…
lá não espero cartas
nem palavras de amor
nem carinhos doces…
conto com dias de dor.
Ah! Se tu lá fosses!

És forte e aguentas
esta ausência da ternura
que nos anima a vida…
eu vou amargar
a tristeza e a nostalgia
de quem dorme no capim
onde não chega mais nada
senão um ruído de metralha
um rugir de folhas secas
ou as garras de um abutre
com seu grito de terror!

Qualquer dia… ou noite
sem cacimbo
eu hei-de voltar
e terei com mais fervor
o teu corpo para afagar
e os teus carinhos
… muito amor.

Luanda, Março de 1962

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... AEROGRAMA

Minha mãe… minha ventura
porque não sonhaste esta guerra
os dias de ódio e os espinhos
neste tempo de loucura
que alastra pela terra…
estão longe os lindos caminhos
que me ensinaste a percorrer
para saborear outro viver.

Porque me geraste dolente
para este mundo ruim
onde vivo descontente?
Sinto-me triste e perdido
sem encontrar o lugar
do destino prometido
onde me possa acalentar.

Minha mãe… minha afeição
porque não sonhaste esta guerra
nem os ódios que ela tem
nem os espinhos…
da vida nestes caminhos?

Não é esta a vida que ensinaste
ao teu filho primogénito…
se os deuses me dessem outra vida
antes queria morrer, para nascer
sem dores nem o sofrimento,
porque te vejo a padecer
com a angústia de cada momento.

Nacala, Junho de 1966

Joaquim Coelho

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