segunda-feira, 13 de junho de 2011

Poemas em Tempo de Guerra - Angola 56

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       CONVERGÊNCIA

Procurar nos gestos suaves
a função métrica das palavras
e acentuar os tons mais graves
dum espírito descontente
é alerta-te para que não abras
tua boca a toda a gente...
sem uma longa reflexão!

Porque a lira me dá razão
para escrever versos sem flores,
neste gesto de escrever
não vou desafiar os trovadores
... apenas estou a viver!

Sem tempo e sem fronteiras
o silêncio detesta o vento
que apaga as fogueiras
dos desejos mais iguais
contidos no pensamento.
Nos percursos quase banais
pelas savanas além
vai a mágoa de alguém
sem os sorrisos distantes
desta vida que passa...

Não há poetas radiantes
a descrever esta desgraça.

                          Bembe, Março de 1962      

Joaquim Coelho 

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         CHUVA NA PICADA

Com tanta chuva na picada
a natureza veda o caminho à morte
e nós cortamos a direito para o norte
com a farda suja e molhada…

Camuflados enlameados
gotas teimosas nos olhos
botas a espichar o lodo
pelos furos do desgaste
que apressa a respiração
quebrando o operacional silêncio
que causa desolação.

A tempestade não dá tréguas
e maltrata todo o esqueleto:
a penúria dos colhões
atrofiados nas virilhas
dos corpos aos trambolhões
neste rasto de tormentos
onde as mochilas encharcadas
desfazem os alimentos
no enredo das enxurradas.

    Maquela do Zombo, Maio de 1962

Joaquim Coelho





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         CHUVA NA PICADA

Com tanta chuva na picada
a natureza veda o caminho à morte
e nós cortamos a direito para o norte
com a farda suja e molhada…

Camuflados enlameados
gotas teimosas nos olhos
botas a espichar o lodo
pelos furos do desgaste
que apressa a respiração
quebrando o operacional silêncio
que causa desolação.

A tempestade não dá tréguas
e maltrata todo o esqueleto:
a penúria dos colhões
atrofiados nas virilhas
dos corpos aos trambolhões
neste rasto de tormentos
onde as mochilas encharcadas
desfazem os alimentos
no enredo das enxurradas.

    Maquela do Zombo, Maio de 1962

Joaquim Coelho

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