segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 11

.. O MISTÉRIO
.
Estes hão-de ser os dias derradeiros
e o tempo me há-de compensar...
Ao embarcar no voo rumo a norte
a aeronave rompe o espaço para voar
até aos confins de Angola…

Lá em baixo vemos a paisagem
onde correm os rios férteis
que dão vida às fazendas do café
e abraçam as terras até ao Ambriz.

Pena é que o tempo conturbado
não traga a paz nos dias de sol…
a violência que se espalha nas matas
perturba os sonhos nas cabeças
onde saltitam imagens das meninas
que nos animam em dias de bonança.

O contra-senso está neste mistério
entre os trilhos das matas densas
e a tranquilidade das avenidas
onde o namoro é um caso sério
até ao dia em que o sangue derramado
nos deixa inertes e sem despedidas.

Luanda, Dezembro de 1962
Joaquim Coelho
########
.

.. VIDA EFÉMERA
.
O mundo só ensina violência
e despreza pelas causas embarcadas…
nas danças monótonas do corpo
a juventude não sente na consciência
a razão da falta de amor!

A sociedade vive perturbada
porque a vida perdeu o seu vigor;
os que se vestem de soldados
seguem nos navios embarcados…
e os que ficam, riem-se da sorte
dos que têm os futuro incerto
em terras onde campeia a morte.

A primavera não chegou a florir
no mundo de movimentos trocados,
a guerra inflamou os eixos
e distorce a verdade e a razão…
o poder de risos tresloucados
mostra uma hipócrita comoção.

Vem a noite com alvoradas duras
para os humildes soldados…
sem luz, dormimos às escuras
nas encruzilhadas dos caminhos
onde andamos inconformados
temendo as balas e os espinhos.

Negage, Setembro de 1962
Joaquim Coelho



.. SAUDADE INTENSA
.
A saudade atravessa o espaço
com movimentos de dor fina
que se cruza no meu caminho…
se eu pudesse seguir teus passos
vencia a razão da saudade intensa
e corria, de braços bem abertos,
como os felizes ressuscitados
da imensidão das trevas…

Sufocado pelas parcelas de espaço
que nos causam tremendas dores
sinto o frio das cacimbadas
nas lágrimas dos olhos dormindo
nas noites mais inesperadas.

Será este destino intranquilo
a razão das emoções oprimidas
até aos dias felizes?
Dormimos longe dos afectos
que nos possam dar consolo
nas noites mais tranquilas
e gestos mais simples e directos
na ânsia do encontro sublime
que a saudade que nos sufoca
incendeie o amor que nos redime.

Sá da Bandeira, Março de 1962
Joaquim Coelho
>>>>>>>>>>>
.
.. SILHUETA DO AMOR
.
Eu tenho uma verdade
que afago todas as noites…
longe da glória e da banalidade
acendo o pavio do poema
e todas as luzes me dão gozo
até à profundidade do instinto
sinto um brilho mais lustroso
quando bebo vinho tinto!

É aí que encontro o eco
do desejo que confesso…
os versos semeiam o caos
e incendeiam paixões adiadas
contra a praga dos calhaus
com batota nas batucadas
que me não deixam respirar
diante dum corpo esquivo
que me faz uma promessa
e mostra grande fulgor
disponível para o amor.

Querer sem o querer desejar
é cair no dilema da recusa…
outra coisa é saber esperar
estar dentro da madrugada
e sentir a vertigem do gozo
como se fora a noite derradeira
no limite dos meus sonhos
a burilar a silhueta do amor.

Luanda, Outubro de 1962
Joaquim Coelho
.

Sem comentários:

Enviar um comentário