segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Poemas dos Tempos - Angola76


      PRELÚDIO

No idílio das nossas aldeias
os jovens todos se afoitam,
noitadas à luz das candeias
e as moçoilas bem se acoitam.

Ódios atiçados em Angola:
logo os jovens são recrutados...
com fardas pintalgadas à gola,
seguem nos barcos atulhados!

Deixam na aldeia os seus amores...
olham à volta... mar e água!
Aí se dão conta das suas dores
e do futuro... com muita mágoa.

Temerosos, assomam à proa,
olhando bem no horizonte;
longe, longe ficou Lisboa...
há sempre quem se amedronte.

Desfilam em Luanda, perfilados,
e o povo dá reconhecimento...
lembrando seus antepassados,
com a terra-mãe no pensamento.

Partem p'ro norte martirizado,
onde se forjam soldados de aço!
Sentem saudades, por um bocado
vivem o tempo no seu espaço

           Luanda, Setembro de 1961

Joaquim Coelho



        DESPEDIDAS

O sol inclina-se para além…
no mar transparente da Corimba
os soldados olham o horizonte
que se despede também;
eu continuo aqui… ansioso
à espera do embarque…
mas não estou nervoso!
Não sei se andas no parque
nem sequer olhei para trás…
dentro de momentos
o avião levanta e tu verás!

Embarco sem saber a rota…
o avião aguarda que eu entre
sem dizer adeus… à terra morta
se nela não tenho mais nada!

Notícias… ficam no caminho
com palavras de amor…
da doçura do teu carinho
sentirei a falta
para abafar esta dor
balançando na onda do mar
em maré alta.

Poderás chorar
a ausência de ternura…
a saudade e a dúvida…
eu chorarei a dor amarga
a tristeza e a nostalgia
de quem vai dormir no capim
onde não chega mais nada
senão um ruído de metralha
um rugir de folhas morta
ou as garras de um abutre
e um grito de terror!

Mais tarde… se eu voltar
com mais desejos de te amar
terás então, com mais fervor,
os meus carinhos doces
e eu terei os afagos de consolação
para a renovação do amor.

           Luanda, Setembro de 1961

Joaquim Coelho
«««««««««««««««««««««««««««««
.

    LONGA DISTÂNCIA 

 Aqui sentado, olhando o luar,
imaginei um longo poema...
os teus cabelos sedosos
   leves como arminho
e o teu olhar cintilante
   com o feitiço dum carinho!

Um rosto de níveas feições
com as cores duma romã
e belo como uma flor…
palavras, as palavras musicadas,
na boca sussurrando baixinho
com trinados de tons suaves
como a ternura das aves!

Apesar da longa distância
ser o nosso dilema presente,
quando se ama com emoção
cada um mede o que sente
em bocados de amor no coração.

Ouço as palavras vindas no vento
sem fronteiras para o meu querer
é o modo de contornar o sofrimento
e continuar animado para viver.

    Luanda, Abril de 1962
Joaquim Coelho
<<<<<<<<<
.

Sem comentários:

Enviar um comentário