sábado, 25 de agosto de 2012

Poemas dos Tempos - Moçambique 86



 
NÃO ESQUECEMOS

Qualquer mancebo fardado
Que embarcasse no navio
Tinha o destino marcado:
O perigo era um desafio!

Quando marchava na picada
Ou nos trilhos das matas,
Ficava com a pele marcada
Até regressar às camaratas.

Se apanhava um tiro certeiro
Na tragédia duma emboscada
Nem sempre tinha enfermeiro
Para tapar a pele furada.

O socorro tardava a chegar
Porque o oficial de operações
Andava com os coronéis a caçar
Usando o heli das evacuações!

Quantos mortos abandonados
Por causas mal percebidas,
Quantos feridos amortalhados
Por não serem curadas as feridas.

Para que as memórias não esmoreçam
A bondade da nossa juventude,
Reclamo aos vivos que não esqueçam
Estas imagens de solicitude.

Sagal, Agosto de 1966

Joaquim Coelho
 




           EM CONTRATEMPO

Este percurso em contratempo
      nas picadas dos Macondes
     desencontrado com o tempo
     que o destino encomenda à natureza
     para alimentar a minha vida…
tenho momentos de fraqueza
      muita dor a morder fundo
     enquanto a esperança definida
     está nas verdades do mundo,
     o meu corpo já cansado
     não anda… flutua!
...
Nas margens da guarnição
    do acampamento inventado
    dentro do campo de aviação;
passo por baixo da lua
    para fugir ao labirinto
    das picadas da morte
    que nos causam desolação
    fico preso nas terras do norte
    onde pressinto a ameaça
    da masmorra da guarnição
    imposta pela hierarquia
    quando a grave chalaça
    agrava as dores de cada dia.
.
Diaca, Novembro de 1967
Joaquim Coelho
 
«««««««««««««»»»»»»»»»»»»»
 
 
     LINHA DE ÁGUA
..
Perdido nos seios agitados
pelas ondas do mar calmo
onde naufraguei atrás do amor
desprendido na sensualidade
mágica dos teus encantos
deixo o corpo viajar à linha de água
com os peixes voadores
que sustenta a alma perdida.
...
Como a luz que nasce das trevas
apareceste purificada, divina...
um sopro que a brisa me enviou
para amansar as fortes ondas...
aquelas que me podem arrastar
ao encontro do teu amor.
..
Beira, Setembro de 1967
..
Joaquim Coelho
.
..