quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Poemas dos Tempos - Portugal 83

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.        DESEJO INFINDO

Se eu usufruísse do poder
decretava o fim do servilismo
e abolia o reino da estupidez
que sufoca os domesticados
e os deformadores de ideias;

mandava queimar a língua
dos seres maledicentes
   escroques caluniadores
mias reles do que delinquentes
causadores de graves dores.

Se eu tivesse o poder dos átomos
fundia os risos ridículos
atirados com escárnio
contra os pobres deficientes,
electrizava a atmosfera letal
para os indignos difamadores
corruptos da manjedoura fiscal
que dão tacho aos bajuladores.

Se eu gozasse de poder real
     sem glória e sem vaidades
semeava artistas da natureza
     o sumo das celebridades
artes com enlevo da pureza
talentos sem preconceitos
     capazes de grandes feitos
no aperfeiçoamento da ciência
premiava os mais honestos
impulsos da inteligência.

Se eu tivesse mais poder,
     sem desprezar a inovação
difundia a ética formal
     elaborada no coração
limpava os caminhos da cultura
que a obscuridade destrói,
elevava os padrões do mérito
e da criatividade genial…

Não invento metamorfoses
      na sociedade bestial,
mas tenho a forte convicção
de levar melhor a vida
com respeito pela evolução,
por ver a causa perdida
corro atrás dessa ilusão! 

Joaquim Coelho




      AOS INDECISOS

Tu que foste chicoteado com ódio
e arrastado no chão das prisões,
não fiques espetado na rua.
Salta as barricadas do pódio
e apaga as labaredas e vulcões
porque a revolução é tua…
e estão à solta os aldrabões.

Vós que fostes humilhados
e severamente torturados
nas noites que se não dorme
por causa de fortes convicções,
lutai ao lado das bocas de fome
até que a liberdade esteja nua
e o ranger de dentes dos opressores
se ouça bem em cada rua.

Vós que semeais as searas
e comeis o pão da escassez,
não pareis para ser derrotados,
nem descanseis na sensatez…
estão a regressar os desertores
para comerem os bocados
que o povo cultiva com dores.

        Seixal, Março de 1977
Joaquim Coelho




     PERDIDO NO CAIS

Ainda apático e friorento
sinto-me embarcar na mansidão
do teu olhar cintilante...
é um novo encantamento
que me abraça neste instante.

Não me queiras enfeitiçar
sobre as águas do mar...
os pés firmes nas pedras
do cais onde se embarca
têm o enlevo fascinante
e os odores da tua marca.

Esta noite, longe das trevas
com um novo encantamento...
o feitiço sensual e envolvente
prende-me no enlevo fascinante
da gruta onde chego primeiro
dentro da noite de nevoeiro!

Joaquim Coelho
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