sábado, 10 de dezembro de 2011

Poemas dos Tempos - Angola 79

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 O REGRESSO DO GUERREIRO

                       1
Na noite fresca das memórias
impressas no fervor do combate,
atrevo-me a percorrer a picada
   fugir ao abandono da vida...
enterrar a violência em movimento
   até sarar a dolorosa ferida!

Abrir novos caminhos ao vento,
resgatar os corpos abandonados
reabilitar a alegria dos soldados; 
construir caminhos longos, serenos,
    límpidos dos ódios e da morte;
absorver o sol nos dias amenos
desvendar as atrocidades do norte
construir um barco transparente
e embarcar em paz com toda a gente.
          
                           2
O regresso é motivo de alegria,
mesmo ao toque da metralha,
quando é passado mais um dia
sem cair na sepulcral mortalha.

  Na chegada o abraço da malta
  e a alegria do silêncio sobressai,
  do companheiro noto a falta...
  até o bater do coração descai.

É bom adormecer na nossa cama...
acordar com o cantar primaveril,
é a manhã soalheira que me chama
... logo, estarei longe do Grafanil.

                    Quicabo, Janeiro de 1963

Joaquim Coelho




      UM DESAFIO    

Daqui lanço o desafio espiritual
contra os oportunistas das emoções
desavindas nos atalhos da cultura;
revelo ao mundo inteiro, afinal
o propósito da campanha absurda
engajando colonos em noite escura
que vagueiam por aí desatinados...

Acabe-se com a ignorância lusa
que campeia nos novos desalojados
arrabanhados nas humildes aldeias;
atraídos pela promessa difusa
das colheitas despidas de ideias
em terras onde o lucro é uma trama
com gente ignóbil que os  engana.

Este é o meu sério desafio à vileza:
difundir a razão dessa incerteza
que paira nas terras de Angola
e combater os que vivem à gola!

A verdade tem a grande nobreza
de evitar que as dolorosas lágrimas
vos deixem abatidos na pobreza,
enquanto os mortos inocentes,
se acomodam à luz dos crentes.

         Luanda, Junho de 1962
Joaquim Ceolho

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      NOITES FRESCAS

Eu sonhara nas noites frescas
que eras tu ali tão longe...
entre nós existe um deserto
e afinal estás aqui tão perto
que nem sei se me perdi...

A distância não tem razão
para desfazer esse enlace
que te atrai sem presunção,
leve como os sonhos quentes
de qualquer ave que voasse
em busca dos beijos ausentes
que se evaporam na vertigem.

Tentemos voltar à origem
na lonjura do pensamento
animador da nossa vontade,
é um desejo que vai no vento
como o arfar de felicidade.
 
Procuro entender o critério
até à fronteira da incerteza
que atormenta o amor-mistério
onde se perde a casta beleza
dos frios beijos sem retorno;
no teu corpo pudico e morno.

Acaricio a melancólica solidão
e sinto as agruras da descrença,
onde a indiferença sem razão
atormenta a tua presença;
é uma esperança do desejo
para acalentar o frio beijo.

Nas noites frescas sonhara
que estavas ali, tão longe
embriagada na longa distância
reprimida no fascínio da verdade;
quando a solidão nos atraiçoa
o amor deixa-nos sonhar à toa!

         Negage, Maio de 1962
Joaquim Coelho
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