segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Poemas dos Tempos - Angola 77

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    REI DESTRONADO

Fui atirado para a guerra
em terras tão longínquas
que deixei de ver borboletas
dando voltinhas no ar…
fujo das mulheres pretas
para não me verem chorar!

Longe dos campos ancestrais
vejo o fim em cada esquina
e temo não voltar mais
à terra que tanto me estima.

Entro nas matas e as ramagens
deixam a alma despedaçada;
são perigosas as viagens
e põem o corpo moribundo
a caminho da campa sem fundo.

Há um fantasma devorador
a atormentar a minha alma
tento afastar esta dor
para viver com mais calma!

Ao fantasma eu mandava
até aos píncaros do inferno
para ver se o queimava…
mas sendo um rei destronado
vivo sempre amedrontado
sem força… um mal eterno!

         Quitexe, Março de 1962

   Joaquim Coelho




           MADIMBA
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Quando entro na mata em silêncio
a memória atenta logo me desperta
a proximidade da morte que desliza
na ribeira ondulante e fico alerta;
o inimigo espia cada movimento
esquivando-se ao golpe de mão
mas ataca sempre à traição.
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O medo que nos envolve no vento
parece persistir no espaço da vigília
e até no ar que respirámos...
cada caminhada é uma perícia
dentro da madrugada silenciosa
este penetrar na mata adormecida
numa busca atenta, dolorosa
natureza que esventrámos
para combater os inimigos da paz,
com profunda certeza, sonhámos,
nesta Angola que muito nos apraz.
   Maquela do Zombo, Junho de 1962
   Joaquim Coelho
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         AMOR MORTIFERO

Impudica donzela envergonhada
que me seduzes irremediavelmente
é inútil que me afagues mansamente
na miragem dos corpos famintos,
afasta de mim o teu olhar suplicante
que fulmina os meus desejos…

Abandona a presunçosa gratidão
que brota das tuas palavras ocas
deixa que seja a voz do coração
a convergir as nossas bocas.

Aos deuses do amor suplico
que me afaste dos teus beijos
e me arrefeça os desejos...
bem amarfanhado eu fico
ao possuir teu corpo sensual
num lúbrico contacto casual.

É na força dos corpos quentes,
que campeia toda a graça
dos sussurros semi-inocentes
que despertam toda a praça;
és a envergonhada donzela
debruçada sobre a janela.

Gosto das impúdicas seduções
a despertar os desejos sensuais
sem as corporais limitações
dos amantes em sonhos reais;
a distância é uma natural reflexão
enquanto vítimas do coração.

  Luanda, Novembro de 1962
   Joaquim Coelho
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