sábado, 1 de outubro de 2011

Poemas dos Tempos - Portugal 73

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   SARGETA DO PROGRESSO

Maldita televisão do mundo
que todos os dias me alerta
para o caos… sem retrocesso
e para os famintos sem esperança
atirados para a sarjeta do progresso!

Malditas comunicações avançadas
sempre atentas às desgraças
que deixam os desprotegidos
a mendigar pelas praças.

Malditas tecnologias diabólicas
que servem para adormecer o povo
e destruir o seu sonho simples
de acreditar no mundo novo…

Assim triturados na globalização
onde se movem interesses poderosos
somos atrofiados na competição
e enganados pelos asquerosos
que roubam os bens da nação...

Há muitos abandonados na valeta
desta estrada para a miséria
onde a justiça social é uma treta
enfeudada ao jeito dos políticos
que nos tratam como indigentes
e como uns estupores críticos
escravizados pelos incompetentes.

Decretam os nossos defeitos
para sermos mais infelizes
e até nos cortam os direitos
que marcam as nossas raízes.

Maldita imposição de vida
despida de alicerces e solidez
onde a esperança está perdida
nos preconceitos da estupidez.

Joaquim Coelho




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     A SEGADA DE SÃO BENTO

Os quadros de símbolos ilustres
atestam os homens de virtudes
    sem paixões alucinantes
nos ornamentos do parlamento;
mas estão sendo desvirtuados
no contra-senso fedorento
dos deputados mais bizarros
    artistas da maldição
que atira os valores da democracia
para o fundo do caixão!

Parlamento em crescente agonia
conspurcado pelos cúmplices do mal
que alastra neste país adiado
na dolorosa comédia de cada dia.

Debates hipócritas, vazios,
horrível falta de aprumo, delírio
a atormentar o povo eleitor
que na dignidade sente calafrios
e perde a razão do seu valor.

Parlamentares melancólicos
     distraídos e dorminhocos
comediantes do espaço luxuriante
malditos fomentadores de crises
cantantes de discursos bacocos
disparates contra os pagantes
que vivem cada vez mais infelizes.

Pseudo-democratas herméticos
em subtis shows de hipocrisia
escabrosos coveiros de esperanças
com musas políticas em ascensão
      no império liberal inquietante
suicidas das nobres virtudes
traindo o futuro de cada votante.

Detesto a tenebrosa comédia
do cinismo agudo em São Bento…
     cómicos inquilinos falhados
     pretensos eruditos das leis
     urdidas para legitimar o favor
leis selvagens, contra-direito
encobrindo as acções selvagens.

Acabou-se.
Prefiro um parlamento elitista
      malabarista
para acalentar os espíritos
mais pessimistas, medíocre
com lacraus, hienas e vampiros
mais bestas que os demónios…
que nos causem menos mal
no paradoxo dos talentos
de má memória em Portugal.

Na miragem da democracia
    inventário contra a cultura
do povo que sofre reveses!
Estamos próximos da ruptura
   não basta o dom Sebastião…
tudo está bem lá por são Bento
até rebentar o balão…

Já percebemos que os ouvintes
não enxergam a democracia nua,
a miséria espalha-se pela rua
poluída de pedintes!

         Lisboa, Julho de 1983

Joaquim Coelho
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       FULGOR DE DESEJOS

Quando anoitece dentro do coração
qualquer sombra anula o sol…
que importa pararem os relógios
se o tempo de espera se prolonga
até ao som do bater dos sapatos
como o despoletar da granada
a despedaçar o que resta da noite.

Nada consegue extinguir o amor
que esteja entranhado nas células
desmaiadas na doçura das lágrimas
onde os poros expurgam o sangue
que persiste em circular
nos lábios que esperam calmamente
sorver a língua que desprendes
em quentes lufadas de amor.

Com o fulgor dos desejos ao rubro
impacientam-se os amantes…
despidos do preconceito da devassa
os membros curvam-se vagarosos
cedendo aos contornos que gravitam
e dançam à volta das silhuetas
que sufocam no horizonte do amor
germinado na ceifa das sementes
implantadas no ventre da escuridão.

No silêncio do derradeiro impulso
a suprema unificação dos fluidos
incendeia um turbilhão de emoções
dentro do átrio de duas vidas
germinadas na corola dos corações.

  Joaquim Coelho
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