sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Poemas dos Tempos - Moçambique 69

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   ÀS PORTAS DO INFERNO


O cacimbo ácido das noites de Nacala
já me rói os alvéolos pulmonares
e os silêncios que povoam as sombras
misturam os assassinos dos pobres
com as madrugadas das bebedeiras
onde se dependuram os sorrisos
    que corrompem a pátria lusa.

A minha esperança mais difusa
    neste mundo sem remédio
ainda acredita nas coisas simples
dos que trabalham as machambas
    para colherem os frutos...
as armas acordam a madrugada
e as sombras corrompem a dignidade
misturando as mulheres nuas
com  os polícias que nos sorriem...

Misturo-me no bar com as cervejas
    para reanimar os últimos sonhos
enquanto os pulmões respiram
e o sangue se não espalha nas matas
    onde se perdem muitas vidas
sem se despedirem do mundo...
eu só quero ir por onde não vou
porque o senhor antónio me silenciou.

Enquanto o mundo escorrega
    para os confins do Inferno
e os meus despojos com ossos
    que os donos da pátria desprezam
se não esmagam na solidão,
quero sonhar com mulheres doces
    que me acolhem nos braços
e deixar que os acordes da noite
me adormeçam com uma certeza:
os ventos hão-de enfunar as velas
e o barco encontrará águas mansas
para navegar no Índico azul
    como um barco de crianças
até contornar a África pelo sul.
     
               Nacala, Janeiro de 1967
Joaquim Coelho
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        PÁTRIA MURIBUNDA

A morte marcou encontro na emboscada
e logo a metralha no vale entoa,
vejo uma cabeça caída, desmaiada,
confio em deus que é boa pessoa...
só o cajueiro serve de parapeito
para amparar aquele corpo já desfeito.

Sinto o salpicar fresco do sangue
saindo das tuas veias perfuradas;
e o meu corpo meio exangue
defende-se com as armas enlutadas,
enquanto outros mais destemidos
apressam o socorro aos feridos.

Assim, nesta terra dilacerados,
com a vida presa nos rudes fios,
caminham estes bravos soldados
e os seus silenciosos calafrios;
nas savanas caem os mortos
e os feridos cambaleando, tortos!  

Mães, sofridas e enlutadas, chorai
à sombra da sagrada bandeira;
meu povo, homens de génio despertai
antes que a pátria arda nesta fogueira.  


Vale de Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho





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       FRUTO SENSUAL

O teu corpo fechado à chave
masturba o pensamento deslizante
que faz de mim faminta ave
voando até ao ninho reconfortante.

Mas tem cuidado redobrado
quando te vestes de amor
porque um homem enganado
pode ofender o teu pudor
atirando a tua boca
de encontro ao seu ventre
e logo o realejo toca
para aumentar o desejo ardente…

avançando na sensual viagem
que o gostoso movimento recomenda
com os olhos nesta miragem
a língua passeia-se até à fenda
e repousa com terna brandura
na estrada silenciosa que desfruto
num repasto de louca candura
saboreio o delicioso fruto.

Poisado no silêncio dos teus braços
e embrulhado no frio da madrugada,
o corpo preso nos espasmódicos laços
desta noite lasciva e endiabrada.

                  Beira, Março de 1967
Joaquim Coelho
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1 comentário:

  1. Caro Camarada Joaquim Coelho

    Vou escrevendo o Amor (desde os tempos de Guerra) sem misturar a violência que vivemos com o outro lado da sensibilidade.
    Aqui, mostras uma narrativa poética das diversas fases do teu percurso. Tu o apelidas de Diário e eu acredito.
    É meu entendimento que conseguiste esse objectivo.
    Parabéns a este teu trabalho.Pela Obra no seu todo.
    Não tenho nada que se assemelhe. Apenas o Relato do que passei (mas com o nome próprio).

    Abraço Solidário
    SOL da Esteva

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