segunda-feira, 18 de julho de 2011

Poemas dos Tempos - Portugal 63

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         DESPERTAR

Nesta amálgama de fantasia
ensombram-se os sinais de alegria
entrelaçados nas linhas divergentes,
razão de tantos descontentes…
quando sentimos fugir o tempo
num dialogo morno, sem alento!

Porque estamos a ficar distantes
do sentimento dos amantes,
e do rumo que a vida nos aponta
é tempo de reflectir, tirar a conta,
e render honra à evidência
que nos faz pensar com prudência.

Na hora do entardecer venturoso
ficamos como o pássaro ditoso
a olhar o abismo da incerteza
e presos no palácio da vileza…
se a vida não vislumbra felicidade,
vai amor… acarinha a liberdade.

Tenho vontade de subir ás estrelas
aproveitar as coisas mais belas
e combater o premente capricho
que envolve as vidas no lixo…
Antes quero uma pétala florida
e um coração para me dar guarida.

   Joaquim Coelho
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      REFORMAR OS POBRES

A reforma dos políticos reformados
multiplica-se por muitos milhares,
deixa um descampado de invejas
na vida de milhares de espoliados.

Há muita gente de bom falar
numa espécie de cisma irada,
mas é no silêncio da manada
que os manhosos vão mamar.

A santa graça dos ignorantes
abre profundos sulcos na carne
só porque perderam o brio
e deram liberdade aos tratantes.

Dos que vivem o dia em suplício
nada mais vemos que sofrimento,
o protesto sem eco é desperdício
quando é vazio o pensamento…

Os medíocres, em maioria triunfal
comem na manjedoura dos juízes
e fazem do país o seu quintal
sem reforma para os pobres infelizes.
    
            Joaquim Coelho




       VIAGEM ONÍRICA

Penetro no fascínio das ruelas
sem luzes cintilantes, vielas
associadas à emoção da realidade
das filosofias transparentes…

um desejo efémero de sedução
inflama a dúvida enigmática
do silêncio…    das estátuas.

A inconstância nos olhos impúberes
cristaliza os reflexos do corpo
esperando a hora do sortilégio
em contorções lúbricas de prazer.

Vultos… em misteriosas convulsões
desafiam os génios insaciáveis
com prodígios de beleza sensual
e as ninfas
                  de lábios deliciosos
passeando os seios palpitantes
em meu corpo extravagante
transformam os gemidos lascivos
numa sinfonia de sons ondeantes.

No Carmo
                 batem duas badaladas
hora excitante da louca orgia 
momentos de infinda languidez
passados num êxtase perfurante…
o silêncio metafísico da letargia
deixa um rasto delirante
até ao nascimento do dia.

Ouve-se a voz poluída da cidade
definindo a realidade do sonho
     espaço figurativo da acção
onde o riso irónico das ninfas
perpetua a imagem da perfeição
     descoberta na subtil sensação
que se escapa na ânsia desmedida
na busca do amor, dolorosamente
incerto na ruela idolatrada da vida. 

          Lisboa, Maio de 1982

    Joaquim Coelho
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