domingo, 1 de maio de 2011

Poemas dos Tempos - Port 55


      PAÍS DESGASTADO

Os intelectuais são janotas
Entrincheirados nos currais
Fechados dentro de portas
Vão voando como os pardais.

O povo triste e enganado
Com a desgraça da miséria,
Os socialistas xotam o gado
Na agricultura da léria.

A delinquência progride
Dentro das nossas escolas,
Louva-se o aluno que agride
E premeia-se com esmolas.

A libertinagem é um regalo
Enquadrada no facilitismo
Temos os imbecis de estalo
Que queimam o socialismo.

Temos um país desgastado
Onde abunda a podridão,
O futuro está penhorado
E à mercê de cada ladrão.

  Joaquim Coelho




           DESPERTAR ABRIL

Interrogo os migrantes da política
e não encontro respostas no tempo
que o húmos despertou nos cravos
em abril da esperança e nova vida.

A peregrinação exaspera os corpos
que caminham nos eixos da incerteza
e os espelhos multicores reflectem
imagens nítidas de grave corrupção
que ensombra os valores conquistados
e insulta a nobre missão patriótica.

São os cobardes e os desertores
que vão atirando para a sarjeta
toda a razão da nossa vitória
e deixam morrer os corpos exangues
daqueles bravos que bateram
pela libertação do país em glória;

muito gente passa mal, vive infeliz
e perde as ideias gratas do progresso;
eu também não esqueço o que fiz
para evitar a ameaça do retrocesso
à desgraça da miséria em cada dia:
o povo aos tombos, desesperado,
perdido pelos caminhos da vida!

Sente-se ainda a chispa ardente
iluminando o que resta da revolução;
mas o cerco da engrenagem latente
tenta aniquilar as últimas miragens
animando os desejosos da tirania
numa insaciável conjura de poder;

é o fervilhar da corja de aldrabões
lambe botas dos arrogantes patrões
que enriquecem da noite p’ro dia
como fantasmas da mágica cobardia!

           Lisboa, Maio de 1982

   Joaquim Coelho
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  ENCRUZILHADA DE PAIXÕES

Nem chegamos a colher flores
     porque se as colhêssemos
     sentiríamos a suavidade
     dos seus perfumes
lembrança de afectos inocentes
      mesmo por instantes
não deixa de ser amor.

Se ao menos nos abraçássemos
até percebermos o que sentíamos
talvez o entrelaçar das mãos
     no sossego das vidas cruzadas
ao sabor do afecto crescente
amansasse as horas passadas.

Ficamos silenciosos e cegos
ao chamamento dos sentidos
e ao pulsar dos corações…
não vimos a suavidade  da vida
a determinar cada movimento
na encruzilhada das paixões.

Com os olhos semi-cerrados
segui outros caminhos…
    cada dia mais amargurados
tentanto trazer à memória
porque fomos tímidos apaixonados!

A vida não cessa com os desenganos
     há um chamamento actuante
nas estradas percorridas
     porque a simplicidade
     com que nos amamos
     ficou-se pelo sonho
     que não realizámos.

Deslizei nas longínquas noites
na distância geométrica traiçoeira!
Envolvido na penumbra pardacenta
jamais senti suavidade
como no primeiro lampejo de amor.
Vivo uma dolorosa realidade
      no silêncio do meu íntimo
e tudo me desconforta…
para encher esta vida vazia
e sorver a felicidade prometida
apetece-me bater à tua porta
      o que senti algum dia
      que poderá ser paixão
foste tu que abriste meu coração.

    Joaquim Coelho
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