sexta-feira, 8 de abril de 2011

Poemas dos Tempos - Moçambique 50

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     ALVORECER DA BONDADE

Combatente que te encontras confuso
e no mundo não encontras teu caminho,
antes que nasça o sentimento difuso
e não enxergues nas crianças o carinho,
lança fora os dias de raiva intensa
contra os que te amarram à vilania
da vertigem da traição e hipocrisia.

Não corras porfiando o tempo
porque é disputa ingrata e mesquinha,
na condução dos homens pelo mundo…
cada ser tem a sua razão da vida
e luta para perdurar o amor fecundo,
porque esta guerra está já perdida!

Lança as tuas penas aos riachos
e colhe da vida frutos perfeitos,
põe em cada estrela a tua vontade
que alumia os caminhos com futuro,
observa os clamores sem beleza
implorando a mística simplicidade
dos lábios das crianças em pobreza
que anseias dias de felicidade.

          Mueda, Dezembro de 1967
Joaquim Coelho





  AS COLUNAS AVANÇAM

As tropas endiabradas avançam
    nas picadas da morte
avançam a ver se alcançam
os ventos da boa sorte.

levam armas para matar
sem conhecerem o inimigo,
ninguém pode recusar
- isto também é comigo?

De Nangade já partimos
numa marcha bem penosa,
as colunas avançam
nesta selva tenebrosa
sem recato nos canhões
os soldados que se lamentam
ao verem tantos caixões!

Mais colunas avançam
em todas as direcções...
avançam e levam a morte
no troar das detonações,
e os soldados perguntam
porque fazem esta guerra
e quem os mandou avançar
para longe da sua terra!

        Nangade, Fevereiro de 1966
Joaquim Coelho

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         HORIZONTES

Olho além da infinda vedação,
o arame farpado me espicaça
a alma, esmorece o coração;
não encontro o tempo do regresso
nas lágrimas que não esqueço.

Para amar-te com mais vontade
ao vento lanço o murmúrio sentido
contra os ódios que repudio...

antes os lábios doces, sedosos
e os teus seios mimosos...
no silêncio da esperança
ouço o teu suave respirar
com o vento, na bonança
voltarei para te abraçar.

          Diaca, Setembro de 1966
Joaquim Coelho
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