domingo, 20 de fevereiro de 2011

Poemas dos Tempos Port 41


A INTENSIDADE DO BEIJO
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A vida é feita de mudanças e, também, de saborosos imprevistos. Há momentos que nos tocam com tal intensidade que desencadeiam emoções capazes de nos sensibilizar para escrever textos e poemas quase proféticos. É o caso dos dois poemas que publico em baixo, como resultado das reacções sentimentais sobre um episódio ocorrido durante uma festa de amigos. Entre os presentes, estava uma menina que fascinava pela desenvoltura e frontalidade nas conversas à volta dos efeitos das telenovelas brasileiras na sociedade portuguesa, especialmente no comportamento e linguagem.
Sentada do meu lado esquerdo da mesa redonda, causava-me algum embaraço quando me tocava com o cotovelo em sinal de discordância de outras opiniões; alguns dos presentes aproveitavam os diálogos para mandarem indirectas com sentido jocoso e provocatório; a menina não se perturbou e, num gesto inesperado, colocou as mãos nos meus ombros, olhou-me nos olhos e colou os lábios quentes e vigorosos contra os meus. A emoção mexeu-me com os neurónios e, um magnetismo envolvente, prendeu-me naquele beijo longo e febril; pareceu-me flutuar no espaço como se fosse um sonho alado. Serenamente, terminámos o contacto dos lábios e sorrimos!
À nossa volta, o silêncio imperava e os olhares dos presentes pareciam comprometidos com a surpresa; logo, logo, começaram as conversas de escárnio e mal dizer! A menina tinha muitos pretendentes naquele espaço de convívio, o que desencadeou algumas reacções impróprias, porque todos receavam confrontar-se com a postura firme e decidida com que a Mila defendia as suas convicções acerca da sociedade e dos comportamentos.
Deixo um poema à menina e outro aos amigos lá presentes.  




      A RAZÃO OFENDIDA

A mordedura tocou bem fundo
a sensibilidade, com tristeza…
serão as dores iguais às do mundo
que se derramam sobre a vileza
dos seres vagos, flutuantes,
sem mérito, seres errantes?

Não há acusações inocentes…
como hei-de eu começar?
Pelas intrigas indecentes
porque hei-de eu acusar?

Não é glória para ninguém
abusar da fraqueza de alguém;
porque a vileza do intriguista
é um acto de grave indecência
e indigna maledicência.

Aquilo que mais dói
é amesquinhar a paciência
que a inveja corrói,
é atirar para o abismo
a dignidade dum confidente;
é levantar a suspeita
entre os amigos chegados
numa paz que ninguém rejeita.

Poderemos nós comungar
os mesmos princípios altivos
com amigos a conspirar?
Eu não pergunto ao acaso
quem tem desejos furtivos
e segreda as mentiras
injectando o veneno
da estranha adivinhação
rastejando no terreno
das víboras em confusão.

Sinto uma grande tristeza
quando se perde a consciência
e se tenta destruir o círculo
da salutar convivência..
e pergunto com franqueza:
a quem aproveita o desdém
e a promoção da vileza
que causa danos a alguém?

Porque se adultera a amizade
e destroem os bons sentimentos
quando queremos que a felicidade
nos afague como os ventos?
Acaso será a desordem
a melhor concepção de vida?
Os pássaros não se mordem
nem a bissectriz é distorcida.

Em vez de apertos de mão
em sinal de sincera amizade
e dos lampejos de amor,
temos uma estranha sublimação…
olhares vesgos, sem verdade,
que causam grave destemor.

Porque acredito no mundo
e consigo vencer o espaço
lamento os escravos da inveja,
que não sabem acertar o passo,
e a sua angustiante vaidade
em busca do mérito alheio.

Merda para a taça invertida
que as bocas imundas beberam!
Sendo perversos, esqueceram
como é bom gozar a vida
e sentir o mérito da amizade
sublimar a dor dos ofendidos.

Nada melhor que a claridade
para animar os sentidos!

Joaquim Coelho





       ENCANTAMENTO

Aqui na minha frente, o postal
que me enviaste pelo Natal,
traz-me lembranças de ausência
em tempos que andei à deriva
a ver se encontrava a lua…
tímido, de olhar romântico,
a vida muito longe da tua
com o coração em repouso.

Negar que te amo, é um pecado
que a ternura não aceita…
a tua natureza acolhedora
é um prodígio deslumbrante;
mulher vistosa, encantamento
com cabelos sedosos
alimentando as minhas fantasias
envolvidas em cada pensamento
a cativar os beijos gostosos.

Nos momentos serenos de alegria
entramos no palácio habitado
despindo as vestes da poesia
deste meu ser enamorado…
raios de sol na nossa vida
em cada dia mais renovada
com a chibatada bem merecida
na longa noite idolatrada.

Joaquim Coelho
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