quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Poemas dos Tempos Angola 40

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....        SENTINELAS

Todos nós somos atentas sentinelas
que se embrenham nas matas traiçoeiras,
é um infindo caminhar sem ver janelas
e perceber porque existem as fogueiras.

À espera da chuva que acalme a poeira
que nos deixa inquietos na madrugada
     é um caminhar sempre alerta...
neste lodo da margem camuflada
sente-se a boca seca e o pó salpica
os reflexos que se degradam
é o momento em que nada fica
como estava antes da explosão...

Roçando os taludes da margem
os corpos arrastam-se pelo chão
até que a vida seja ausência
e o mármore a sua última viagem.

Perdidos nas picadas infinitas
ausentes dos afectos dos amigos
vemos a escuridão da madrugada
que nos convida a gritar
contra este abandono do olhar
envolvido na bruma da manhã
     à espera da última cilada... 

                   Nambuangongo, Abril de 1962
Joaquim Coelho




..       CAMINHOS do NORTE

Quando avançamos para o norte
com toda a força da nossa raça
não tememos mais a morte...
no regresso marchamos na praça!

Frente aos perigos das emboscadas 
cavalgamos nos unimogues  cinzentos,
e para cumprir as nossas jornadas
enfrentamos graves tormentos.

Avançamos até aos confins de Angola
com toda a vontade para vencer
os inimigos deste povo que se amola
e amassa o pão que não vai comer.

Nas rudes picadas do norte
onde entramos ao amanhecer
joga-se uma migalha  de  sorte,
porque a vida não se pode perder.

Uma missão nos braços da pátria
que me vai incitando a avançar,
na convicção de que é mátria
esta estranha forma de consolar.

    S. Salvador do Congo, Julho de 1962 
Joaquim Coelho

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      CANÇÃO DE AMOR

Senti no tempo a noite fria,
um sonho indeciso e vago
procurando a vida em cada dia
no caminho onde divago.

A vida fechada na solidão
é fruto do néctar da flor bela,
do pensamento sai o clarão
onde fico a contemplar
o rumo da celestial estrela
que me deixa aqui a penar!

Nas trevas da noite indecisa
há uma sombra maravilhosa…
a saudade…. canção de amor
na longínqua África sequiosa
vem ouvir esta canção de dor,
vem colorida e formosa!

     Luanda, Outubro de 1962
Joaquim Coelho
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