terça-feira, 19 de outubro de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 27

.. ESPELHOS BAÇOS
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Eu preciso reabrir as cortinas...
Preciso contar sonhos alucinados,
escancarar o inferno nas memórias
imersas nas picadas e nas esquinas;
perder o medo das loucuras
de todas as minhas amarguras
gravadas num fio de esperança!

Eu preciso entender as feridas
e os olhares ternos das crianças
que mostram a simplicidade...
preciso entender o delírio
dos soldados assustados...
mostrar ao mundo esmorecido
como ultrapassamos o abismo,
com o corpo rasgado...
irremediavelmente esfacelado!

Eu preciso mostrar ao mundo
os resultados deste poder imundo!
Testemunhos empilhados na vida
e o sangue perdido nas savanas
sem aproveitar à guerra perdida
por causas doutros sacanas...

Eu denuncio todos os horrores...
mas já me sinto perseguido
por defender os eternos valores
com firmeza... serei destituído?

Querem envolver-me no embuste
das verdades sem fundamento...
mas mantenho o meu juramento
para que o povo não se assuste
com a verdade empobrecida
que põe em perigo a nossa vida!

Pela verdade não temo o embate,
mesmo que agrave o meu infortúnio!
pois está latente outro combate
com as armas que temos na razão...
Serão tempos de medo, sangrentos
em cenários terríveis, de aflição
- já sinto os graves tormentos:
cravaram espinhos no meu coração!

Beira, Maio de 1967
Joaquim Coelho
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... LAIVOS DE VALENTIA
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Clamo à terra que absorve os líquidos
que se desprendem pestilentos,
dos vossos corpos já putrefactos
que nos atormentam a saudade
da vida jovial que já não tendes.

Esta ténue esperança na alvorada
vai animando as nossas vontades
para que levemos a mensagem da paz
até aos confins dos tempos,
enquanto sofremos nos corpos
os efeitos da distorção dos valores
e os povos de crenças ancestrais
almejam viver a sua libertação,
sem as grilhetas da escravidão.

Entrincheirado na selva de incertezas,
ouso afrontar as regras da hierarquia
e perguntar, com laivos de valentia:
onde estás liberdade luminosa
que busco em todos os quadrantes,
para sair desta estranha escuridão
gesta que a pátria renega ao poder.

Jamais poderemos ter contemplações
com os usurpadores das liberdades,
escabrosa corja de ladrões,
manipuladores das nossas vontades,
pseudo governantes doutros destinos,
nos cânticos de rançosos hinos.

Brilha a luz no firmamento do povo
que chora a desdita duma guerra;
as vontades lutam contra o estorvo,
sobem até ao cimo da serra,
e desfraldam a bandeira da liberdade
pondo fim à repugnante chacina.
As vozes clamam o fim da atrocidade
castigando essas aves rapina.

A claridade alastra nas fileiras
desta geração severamente sacrificada,
enquanto os povos dormem nas esteiras
e a raça vai sendo dizimada;
escapei das grades, por um triz,
contornei a selva de aldrabões,
em busca de cada dia mais feliz
com o nascimento de novas nações.

Então, meus companheiros de jornada,
os nossos mortos serão reconfortados,
os vivos recompensados na parada
e os oprimidos libertados.

Tenho vontade de gritar este protesto
que vai fervilhando dentro de mim
custa-me viver a guerra que detesto
enquanto os heróis chegam ao fim.

Nangade, Setembro de 1966
Joaquim Coelho



.. INCONFORMADO
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Aqui, onde por descuido vivo
uma vida triste e ignota,
sou fiel ao meu sentir
e vejo a ambição idiota,
inconformada com os ideais
que fazem o mundo ruim
onde quero viver mais
com esperança dentro de mim.

Nas terras quentes e tropicais
rodeia-me a adversidade…
para não me sacrificar mais
quero ver com claridade
a razão das loucas paixões
nos seres mesquinhos e cegos
que atrofiam os egos.

Oh deus que comandas a vida
afasta-os do meu caminho
como os cães na despedida
longe do mundo mesquinho;
não defendo causas vencidas
nem vitórias ensanguentadas…
vamos tratar as nossas feridas
e construir novas estradas.

Com as melhores intenções
tento contornar a desgraça
nesta guerra sem rodeios
combato contra a chalaça
dos que morrem sem meios;
terei que escrever com sangue
para ficar na memória
a imagem do soldado exangue
que se finou para a história.

Beira, Janeiro de 1968
Joaquim Coelho
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.. FELICIDADE ESPERADA
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Aqui, bem perto de mim,
vejo as sementes regadas...
mas o sonho não acaba assim
nestas lutas de sangue!

A luz das noites estreladas
há-de faze-las florescer,
nos pensamentos libertos
da mordaça e dias incertos
- causa do nosso sofrer!

E quando a guerra acabar
e sentirmos solta a mão
todos se poderão abraçar
dentro da mesma nação.

Lá longe, muito longe..
onde a humanidade mora
calam-se os tambores da desgraça
deste povo que chora
a mágoa da turbulência
que a metralha espalhou!

E os homens sem medo
cheios de esperança, sangrando,
quebram o silêncio do sonho
da África descolonizada;
estendem as mãos ao mundo
num desejo profundo
da felicidade esperada.

Mais crentes nos seus desejos
e nos sagrados valores
querem mais do que sobejos
para a vida sem detractores...
a paz é a força abstracta
que lhes pode dar razão.
E na pátria assim sonhada
saudamos os que lá estão!

Beira, Janeiro de 1968
Joaquim Coelho
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Poemas do Tempo da Guerra 1


.. COMPLEMENTOS
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Nenhum soldado está completo,
se não sente o corpo e o esqueleto!

Sabe bem porque existe...
respeita a morte alegre e triste;
faz a guerra e ama a paz,
na solidão dos ausentes!

Sacrifica a juventude fugaz
com altruísmo de tons diferentes;
fuzila os inimigos decadentes
e dá de comer aos pássaros
considerados seus iguais.

Empenha-se na luta contra o mal
defendendo a vida que tem,
eleva a nobreza dum ideal
e enobrece os amigos também.

Olha o firmamento com respeito
e vê nas estrelas o destino,
escuta o coração que tem no peito
como um mandamento divino...
ama a vida no reino da morte
e recomenda a deus a sua sorte!

Quibaxe, Dezembro de 1961
Joaquim Coelho


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... CAMINHOS do NORTE
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Quando avançamos para o norte
com toda a força da nossa raça
não tememos mais a morte...
no regresso marchamos na praça!

Frente aos perigos das emboscadas
cavalgamos nos unimogues cinzentos,
e para cumprir as nossas jornadas
enfrentamos graves tormentos.

Avançamos até aos confins de Angola
com toda a vontade para vencer
os inimigos deste povo que se amola
e amassa o pão que não vai comer.

Nas rudes picadas do norte
onde entramos ao amanhecer
joga-se uma migalha de sorte,
porque a vida não se pode perder.

Uma missão nos braços da pátria
que me vai incitando a avançar,
na convicção de que é mátria
esta estranha forma de consolar.

Negage, Julho de 1962
Joaquim Coelho




... O REGRESSO
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Depois da luta
há sombras escuras
numa estrada incerta
longa, triste
chamada vida.
E estas cabeças
sentem o delírio
duma vitória
que nos traz glória
com o martírio...

Fatos de tons viris
cobertos de terra cinzenta
em corpos joviais
com os rostos amarelados
cobertos de poeira.
As bocas cheias de sede
maldizem das matas
amaldiçoam o tempo
e fazem o chinfrim
contra a aspereza do capim!

Depois... voltam
de espírito puro e enfunado,
prazenteiros de alma
de corpo maltratado
e ternos de coração
numa camaradagem infinda!

É o regresso...
Para trás ficam negras dores
mas nas suas veias... ainda
corre o sangue generoso
da mocidade sem flores.

Pára-quedistas - “bichos do capim”
Combatentes - fantasmas.
“Páras” arrojados
todos iguais, com a mesma sede
com a mesma alma, determinados!
“Páras” cinzentos, sujos e feios...
“Páras” da morte e da glória,
Homens das alturas
da guerra e da paz.
Homens de todos os destinos
no rumo dos seus hinos
largados no espaço etéreo
desafiando a morte
combatendo e sonhando...
sempre sonhando...
com melhor sorte!

Angola-Quicabo, Fevereiro de 1962
Joaquim Coelho
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.... ACESSOS
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Ao enrolar os ramos da bungavília
na escuridão dos teus cabelos
senti o respirar ofegante...
sinal da entrega em movimento
dos corpos à espera do instante
do sussurro que quebra o silêncio,

as mãos já urdiam com mestria
o lençol lindo onde te estendes
e os dedos farejavam a penugem
ao poisar a glande entesada
nas carnes aveludadas do teu ventre,

o tempo rompeu os meus sentidos
mergulhados em estranhos ruídos
e depois de vasculhar os acessos
sinti os teus braços travessos
contornar o meu corpo desmaiado…

ia alta a noite e o tempo gozado
deixou-me ficar descompassado.

Mussulo, Setembro de 1962
Joaquim Coelho
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