sábado, 4 de setembro de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 30

... A VIAGEM
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Vou ao Negage lá no sertão
a cavalo numa lagarta
que me aconchega na carlinga
em forma dum avião…
a gente anda que se farta
até ao gigante que voa
aqui bem longe de Lisboa.

Tanto pó nas secas picadas
deixam os olhos lacrimosos!
Em Luanda ficaram chorando
na saudade das loucas noitadas
os nossos amores gostosos...

Já sinto o rumor da raiva
contra os facínoras do bando
que nos faz perder a seiva
causa profunda tristeza
e desgasta a casta emoção
nos trilhos da incerteza
com direito a um caixão.

Não somos imunes às balas
com mortífera precisão…
mesmo insultados pela vileza,
não abandonaremos as malas
dos pobres que estendem a mão...
já sentimos o rigor da pobreza
que agoniza os filhos da nação.

Luanda, Novembro de 1962
Joaquim Coelho
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.. ACORDES DA MUDANÇA
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Sinto uma estranha penumbra
a ofuscar as coisas soltas
que trago perdidas na memória:
o misterioso aconchego da mente
prenuncia tempos sofridos...
sinais que muita gente sente
perturbadores da nossa história.

A mente não se cansa da verdade
que afronta muita cobardia
e alguma falta de humanidade
no trato cada vez mais grave!

Abro a mão com esta achega suave
para as carpideiras da desgraça...
não serão os briosos combatentes
a esquecer a dimensão da raça.

Podemos estar descontentes
nesta luta contra a ansiedade;
pois há por aí muito sacana
a achincalhar o brio e a vontade
dum povo que muito se ufana
na defesa dos nobres valores
e de Angola com bons gestores.

Somos a geração que trava a luta
contra a desgraça e o perjuro...
as excelências tramam na sombra
os alicerces de qualquer futuro,
tratam-nos como filhos da puta,
poluem os valores da sociedade
e corrompem a nossa vontade.

Luanda, Março de 1962
Joaquim Coelho


Poemas da vida

Da vida tenho tudo quanto é possível: aventura, viagens, trabalho, amor, fantasia, família, amigos, memórias boas e más, doenças e curas; vou deixar neste espaço parte dos poemas escritos nas mais variadas situações emocionais que um ser humano pode ter. Tempos de viajar, tempos de amar, tempos de guerra e sofrimento, tempo de paz e convívio salutar com os amigos, tempo de desporto e aventura, tempo de reflexão e tempo para descansar.
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A CAMINHO

Eu já mereço deleitar-me
em sonhos
onde te vejo, enfim!
Fico a cismar nas falas meigas
que me envolveram assim
na doçura do mel
e o coração sorridente
nas horas da leitura do papel,

atravesso a selva densa
nesta impiedosa jornada,

Eu hei-de chegar aí
oh minha amada...
com o coração bem aberto
na floresta não me perdi,

eu vou pelo ar
que fica mais perto.

Maquela do Zombo, Setembro de 1962
Joaquim Coelho
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.. ATRACAGEM

Quero apenas regressar límpido
para escutar a voz dos ventos
regeneradores da minha alma;
vou renovar os sentimentos
dentro do meu corpo cansado,
absorver a beleza com calma
persistir no desejo sonhado
na esperança próspera da vida
que encontro nesta viagem
onde esperas, rosa florida,
os meus braços de atracagem.

O encantamento dos teus olhos
sempre cheios de magia
tão reais como os abrolhos
cobertos de poesia...

Gestos longos que gozámos
com a vida em fantasia
sempre que o teu corpo se deita
no horizonte dos meus olhos
logo o deslizar dos dedos
vai de encontro aos teus seios,
neste encanto dos desejos
dos corpos entrelaçados,
os olhos são diamantes
nos rostos esfomeados
jóia mágica dos amantes.

Luanda, Fevereiro de 1963
Joaquim Coelho
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