segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Poemas em Tempo de Guerra 10

IN MEMORIUM

Ó companheiro, como podes entender
a razão das cargas de artilharia
que explodem nos morros de Quicabo,
quando o teu corpo já a desfalecer
te mata a esperança de ver o dia?

Ficou decepado o esforço na convicção
de cumprires um dever com valentia,
quando o destino cruel e inseguro
te cortou a seiva na veia do coração
e te deixou entregue à fatal letargia.

É uma luta que nos marca o futuro
e todos os dias traça a nossa sorte,
este arrastar nas picadas dos Dembos,
um caminho sempre incerto e duro
com vários matizes da cor da morte.

Nesta luta flamejante e tenebrosa
na fatídica emboscada ardilosa
a sanha da morte foi vencedora:
o Quiquiri sentiu as derradeiras dores,
enquanto colhia as flores
fugiu-me uma lágrima desoladora.

Quicabo, Março de 1963
Joaquim Coelho
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... GRAVE HUMILHAÇÃO
.
Um corpo sem emoções fica amorfo
como o estrume que ainda adoba a terra!
Quem poderá esquecer as emoções da guerra,
as caminhadas para o infinito das planícies
e as picadas nas vastas florestas de África,
onde sofremos inquietações sem medida.

Onde estão os rostos que se banharam
nas lágrimas tristes da despedida?…
e os lenços a acenar no cais de embarque,
ou os braços teimosamente abraçados
aos ente queridos que embarcaram
contra a vontade do tempo da sua sorte...
- talvez fosse o embarque p’ra morte!

Quem esqueceu o som do porão do Niassa
quando dava as braçados no rio Tejo?
a memória é chama que não passa
sem lembrar as marcantes emoções
carimbadas com o sabor do último beijo
já com a saudade a inflamar as paixões!…

O soldadinho podia regressar encaixotado
- enrolado na bandeira dos heróis -
com um louvor a atestar que o coitado
teve azar quando entrou nos paióis!
E pelos seus feitos mais nobres,
a familia teria medalha no 10 de Junho,
com direito à pensão dos pobres,
que o Salazar atestava pelo seu punho.

Em vez do orgulho reconhecido
aos sobreviventes destas jornadas,
lastima-se o esforço imerecido
de tantas vidas por aí abandonadas.

Sente-se muita frieza encoirada
nas rudes memórias enraivecidas;
uma vergonha no medo encapotada
das verdades mal percebidas.

É tempo de mostrar a toda a nação
o sonho destes homens-soldados:
acabar com a grave humilhação
para serem livres e não castrados!

Luanda, Fevereiro de 1963
Joaquim Coelho


... ROSÁRIO DE SAUDADES
.
Lá longe, no país dos meus sonhos,
há tantas vidas desnutridas
muitas almas incendiadas
e miúdos que não vão à escola!

As estrelas alumiam as searas
que mãos inspiradas no trabalho
tentam transformar em pão.

Em cada tarde de canícula
sinto que o corpo resiste
à guerra que não dá tréguas.

Não tenho nada para dissipar a dor
que envolve a alma no novelo
da conjura dos tempos sem amor…
é um ciclo brutal e desumano
a defraudar a esperança
na árdua tarefa de dominar o terror.

A força desta crença é persistente
e inspira a razão da vontade
que se afirma em cada combate
prolongado até de madrugada;
a agonia dos corpos feridos
atiça a raiva que acorda
a realidade dos mortos consentidos
na voragem da brutal explosão.

E lá longe, onde o povo geme
à míngua do sustento a pão,
libertam-se os nobres sentimentos
dos que querem defender a Nação.

Ficam os sinais do massacre
encravados nas nossas memórias
e na alma, um rosário de saudades.

Negage, Maio de 1962
Joaquim Coelho
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Poema à professora Maria Ondina Braga:
...
.. ONDINA
.
Silenciosamente
flutuando de mansinho
eternamente…

sobre a água delicada
vai a vida, perdida
quase triste
lentamente
morrer desamparada.

Mágoas despidas
nas águas não as tem.
Sombras incertas
mistério do amanhã
é o que resta
na folha amorosa
que espera ansiosa
o encanto do vento
nas águas agitadas
docemente…
o momento a rigor
de repente…
o deus do amor!

Luanda, Abril de 1962
Joaquim Coelho
.

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