quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 9

... LUTAR É VIVER
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Quando os ventos sacodem o mundo
e se desprendem novos ideais,
o sangue endurece as veias
dos corpos poluídos e destroçados
pelas mais tenebrosas teias
urdidas nos domínios dos opressores
que tramam a vida dos desgraçados
e causam muitas e variadas dores.

Ao ver os olhos tristes e molhados
com lágrimas furtivas e cruéis
sinto que o declive dos morros
nos quebra os derradeiros anéis
da vida que nos liga à terra
perdidos nas picadas de Quitexe
sentimos os horrores da guerra
metralhando o lado da vertente
dentro da alma que a gente sente.

O movimento de forças estranhas
causa estranheza e alguma intriga…
alguém anda a comer as entranhas
dos corpos corroídos pelo tempo
onde o cacimbo causa fadiga!

Enquanto somos, para viver
lutamos contra o tormento
que em nós faz parte do querer.

Quitexe, Novembro de 1962
Joaquim Coelho
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.. NOITES DE SAUDADE
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Cai a noite na sanzala do Piri
e o cacimbo arrefece o corpo vivo
aos soldados que estão aqui
nas terras do café, em Quibaxe,
cobertos pelo manto da saudade
esperando que o corpo relaxe
e aceite tudo com normalidade.

Lembranças nas memórias, espelhos,
dos passos em volta do destino
entre a angústia e a esperança
de voltar aos sonhos de criança
sentado no colo de minha mãe
a quem chamo minha santa
mas com saudade, tanta, tanta.

Amor que ficou chorando no cais,
só me resta a saudade do beijo…
sem saber se a encontrarei mais
tantos são os dias de abandono
sem aquele amor que protejo
fazendo promessas ao patrono
para que acabe esta ansiedade
e eu possa viver em felicidade.

Quibaxe, Novembro de 1961
Joaquim Coelho

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... NOITE SERENA
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Como as flores adormecidas
nos canteiros do jardim,
as nossas mãos aquecidas
numa ternura sem fim
afagam com amor profundo
e os corações ternos a vibrar
perante os olhos do mundo,
sabem como é bom amar!

Gostosa amora morena
plantada na minha vida,
tens a verdura da açucena
e sensualidade sem medida,
tonalidades de todas as cores
para adornar nossos sabores...

Serás a minha princesa
com a graça de nosso senhor
porque creio na certeza
da força do sublimado amor.

Estás sempre comigo, eleita
encarnação dos meus sonhos
porque a felicidade espreita
cheia de encantos medonhos.

Espero um futuro risonho
na vida tranquila e feliz
para viver aquele sonho
e ter aquilo que sempre quis.

Luanda, Fevereiro de 1963
Joaquim Coelho
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LUANDA, até ao amor
Em poucas semanas percorremos um longo e sublime caminho até ao amor. Sem definirmos condições, deixámos que uma amizade fragmentada em períodos de fraca intensidade de afectos e infinitas variantes nos encontros nos conduzisse ao cosmos onde o amor produz a alegria que nos conforta o corpo e contamina a alma. Sem caprichos emotivos, sinto um envolvimento contagiante a despoletar o poder dos desejos condensados na pertinência das vontades. Cada momento dos encontros aumenta em nós o desejo de identidade que mais nos aproxima do estado de plenitude que a alegria sentida produz.
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... NO JARDIM DO COSTUME
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Ainda com o corpo cansado,
passo pelo jardim do costume!
Chupo um rebuçado de mentol
sem perceber que estou enamorado.

Pendurado no sabor da esperança,
ali fiquei o fim da tarde…
a brincar com os queixumes
e gemidos do meu coração!

A ausência propícia as traições
se há compromissos envelhecidos…
Apoiado na dolorosa verdade
fiquei sentado no sítio do costume!

Tu chegaste visivelmente triste…
o teu corpo abrasava como lume
e logo apoiaste a cabeça no meu ombro.

Teus olhos irradiavam sofrimento
contraída de encosto ao meu peito
manifestavas grave estado febril.

Perplexo e mal refeito da emoção
senti os olhos em comoção…
tranquilizei-me nos teus lábios
e fiquei embriagado de beijos
sabendo que os glóbulos sábios
ajudem a temperar os desejos.

Luanda, Maio de 1962
Joaquim Coelho

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