terça-feira, 3 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 8

.. NOVOS VENTOS
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Não é preciso ser um iluminado!
basta perceber o fogo cruzado...

a essência da transparência do sol
mais cintilante na cidade aberta
e as ideias da gente feliz;
o sonho iluminado sempre acerta
na verdade que deus quis.

Enquanto caminho na escuridão
encontro gente ainda triste
vagueando na contra-mão...
com pensamentos amorfos, afogados
nas bebedeiras de tanto infeliz,
perdidos, quase tresmalhados,
nos rastos de qualquer demanda
que os tire das noites de Luanda.

Vejo os camaradas inconformados
crispados pela estranha euforia,
sem grande vontade de combater...
sofrem dos perigosos desalentos
e das traições de cada dia:

são graves os insultos e os tormentos
da cidade às matas de cada alvorecer
mesmo com a afronta dos novos-ricos,
em qualquer dia podemos morrer
porque entendemos a força dos ventos
que vai partindo as asas dos penicos
mas ficam livres os pensamentos…

O imparável evoluir das armas inimigas
nefasto efeito da cumplicidade
aumenta a dor das nossas fadigas…

Adensa-se uma grave intriga na cidade
que nos causa intensa dor difusa:
atiçam ondas de ódio contra a malta,
desde os bares até aos Coqueiros...
porque nos toca fundo, sem recusa,
aceitamos o gozo que nos faz falta!

Bem longe dos ambientes foleiros,
contemplamos o corpo da moça bonita,
mística de encantos brejeiros
e nele mergulhamos em dose infinita.

Quicabo, Abril de 1962
Joaquim Coelho
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... NEBLINA VERDE
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Há sempre uma estranha emoção
quando entramos em nova missão!

Ao longe, a Pedra Verde atemoriza;
seus cumes quase tocam as estrelas
e a primeira tentativa de incursão
deixa em nós uma ideia indecisa:
porque se amachucam as flores belas
que a persistente neblina em união
alimenta na verdejante encosta?

A distância para a conquista da colina
é uma paixão determinada e paciente;
os aviões bombardeiam sem resposta,
as bombas paridas do seu bojo
rasgam as rochas... esconderijos
e o fogo alastra no capim rasteiro
com gritos longínquos da morte.

Mordemos os lábios numa inquietação
enquanto se aponta o morteiro
no milimétrico tiro de sorte
para ajudar na diabólica devastação.
Rasgámos o caminho até ao covil,
contra o sol que se inclina embriagado,
e a vontade de silenciar o inimigo
faz-nos avançar no seu encalço
mesmo correndo o grave perigo
de sermos apanhados no percalço
das fatídicas emboscadas dos estupores.

A noite aproxima-se negra e sombria
e mais se aguçam nossas dores...
alguns já dormem com a boca fria
e toda a caravana esmorece a praxe.
O arrojo alarga a perigosa viela
para os movimentos do Úcua-Quibaxe;
é como se abrisse mais uma janela
para passarem cargas de esperança,
nas viaturas da terrível caminhada,
em peregrina missão de bonança
até aos confins da encruzilhada.

Quicabo, Junho de 1962
Joaquim Coelho



.. SAUDADE DUMA CARTA
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Escrevo esta carta
para mitigar minha dor
e apagar a saudade
que me atrofia os dias
confrontado com a verdade
da lonjura do espaço
onde deixei meu abraço,

não vou limpar da memória
os dia bem passados
nas escadas das Fontainhas
e nos bailes de S. Vítor
a comer saborosas sardinhas,

parecíamos dois passarinhos
a saltitar as escadas
para descer até à linha
e ver passar os comboios
sobre a ponte D. Maria,

não sei se voltarei um dia
levado pela tua mão
como me animavas outrora
nos bailes de S. João,

só espero uma carta tua
antes de seguir para o norte
com um beijo de consolação
para melhor enfrentar a morte.

Bembe, Fevereiro de 1962
Joaquim Coelho
########
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... MARIPOSAS
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O encanto das formas do corpo
engravidam o olhar dos transeuntes
que não encontram desejos de amar
e vivem longe das madrugadas
em que se exalta o amor…

só quando olhamos o infinito
percebemos a razão do encantamento
das mariposas na dança sensual
dentro do olhar profundo
das divindades dos sonhos
que invoco nas noites de amor.

Há gestos indecifráveis
sempre disponíveis para restituir
o brilho às noites com luar
nas águas mansas da Baía,
as mãos passeiam serenamente
nos cabelos sedosos da donzela
que sobressai duma figura
projectada na porta do Baleizão…
as mãos afagam com doçura
as carnes mimosas, em combustão
até à colheita do amor.

Luanda, Agosto de 1962
Joaquim Coelho
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