segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 29

.. AS MINHAS DORES
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Penso em ti, solitário
cumprindo o meu fadário
nas horas sofridas…
nas matas de Miteda,

horas de dor e amargura
que compartilho, em memória,
(porque não me sai da lembrança)
o bálsamo dos teus odores.

Assim escorraço as minhas dores
para os longes do infinito…
e para abafar meu grito,
a alma precipitada
corre mais apressada
para o semblante dos teus olhos.

Penso em ti… nesta ausência
da mansidão dos teus afagos
para que não me faltem
os dons da força e da resistência
para vencer cada dia
que passo nesta aventura
entre as savanas de Muidumbe
com a boca em grave secura
e o corpo quase sucumbe
envolvido na amargura
dos dias sem esperança.

Penso em ti… fugindo ao sofrimento
quando os sonhos vão no vento
que me trazem calafrios…
ao acordar de olhos baços
pelo companheiro com os pés frios
que transportei nos meus braços.

Nangololo, Setembro de 1967
Joaquim Coelho
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.. APRONTAR O DESTINO
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Aqui perdido na savana,
invento um mar com ondas calmas
o vento e um barco à vela
algumas aves para me acompanharem
e a estrela do sul para me guiar
até à terra da minha saudade.

Não sei se tens o dom de sonhar
enquanto me esperas…
mas sei que não posso prender-te
dentro de mim…
para alcançar a liberdade
tenho que libertar o pensamento
e mitigar o absurdo da guerra.

Lutarei até ao fim
para que a nossa felicidade
se liberte deste tormento
que me faz rastejar na terra.

Tenho que libertar a força
que trago dentro do peito
combater escabrosos inimigos
ladinos como uma corça
na guerra do preconceito.

Mueda, Novembro de 1967
Joaquim Coelho

.. BRISA SUAVE
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É infinito o sonho da vida
quando o coração bate docemente,
perdura a amizade sem medida
e o corpo sabe quem está ausente.

Os instantes em que aferi a imagem
que desenham as palavras de apreço
foram breves como se fizesse a viagem
com a simpatia, um precioso adereço.

A tua voz doce prolonga-se no espaço
e deixou eco nos meus ouvidos,
deu o timbre ao poema que faço
quando a imagem desliza nos sentidos.

Habitas no aconchego da memória
onde se renovam momentos de ventura,
o melhor desta benevolente história
é o sorriso calmo da minha ternura.

Não sei se entendes a brisa suave
que difundes dos olhos fascinantes,
mas não consideres pertinência grave
quando os sentidos estão distantes.

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
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.. VENTO MARULHENTO
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Na trajectória sinuosa e devastadora
desenvolve-se a força regeneradora
da razão fútil do nosso combate…
é fraco o estado psíquico de todos nós
quando sentimos os toques a rebate
no enigma dos genes de nossos avós.

Criativas faculdades me fazem viver
na ambivalência da generosa memória,
que anima a vontade deste meu querer
quando está longe a certeza da vitória.

Ainda prisioneiro da Páqtria-lusa,
acariciado pelo canto da deusa-musa,
vou-me despindo do místico preconceito
e lanço ao vento os incómodos espartilhos
que na guerra me deixam mal refeito
das fatídicas emboscadas nos trilhos.

A luta trava-se no conceito da verdade
onde a ambição cruel e desmedida
destrói os melhores valores da sociedade
e a ética enfrenta uma guerra perdida.

Macomia, Novembro de 1967
Joaquim Coelho
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1 comentário:

  1. Valentes poemas parabens;mas julgo neta foto o 1º da esquerda ser o Ráto que era de 65 ! e o 2º da esquerda para a direita ser eu ? mlhado será?

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