segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 29

.. AS MINHAS DORES
.
Penso em ti, solitário
cumprindo o meu fadário
nas horas sofridas…
nas matas de Miteda,

horas de dor e amargura
que compartilho, em memória,
(porque não me sai da lembrança)
o bálsamo dos teus odores.

Assim escorraço as minhas dores
para os longes do infinito…
e para abafar meu grito,
a alma precipitada
corre mais apressada
para o semblante dos teus olhos.

Penso em ti… nesta ausência
da mansidão dos teus afagos
para que não me faltem
os dons da força e da resistência
para vencer cada dia
que passo nesta aventura
entre as savanas de Muidumbe
com a boca em grave secura
e o corpo quase sucumbe
envolvido na amargura
dos dias sem esperança.

Penso em ti… fugindo ao sofrimento
quando os sonhos vão no vento
que me trazem calafrios…
ao acordar de olhos baços
pelo companheiro com os pés frios
que transportei nos meus braços.

Nangololo, Setembro de 1967
Joaquim Coelho
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.. APRONTAR O DESTINO
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Aqui perdido na savana,
invento um mar com ondas calmas
o vento e um barco à vela
algumas aves para me acompanharem
e a estrela do sul para me guiar
até à terra da minha saudade.

Não sei se tens o dom de sonhar
enquanto me esperas…
mas sei que não posso prender-te
dentro de mim…
para alcançar a liberdade
tenho que libertar o pensamento
e mitigar o absurdo da guerra.

Lutarei até ao fim
para que a nossa felicidade
se liberte deste tormento
que me faz rastejar na terra.

Tenho que libertar a força
que trago dentro do peito
combater escabrosos inimigos
ladinos como uma corça
na guerra do preconceito.

Mueda, Novembro de 1967
Joaquim Coelho

.. BRISA SUAVE
.
É infinito o sonho da vida
quando o coração bate docemente,
perdura a amizade sem medida
e o corpo sabe quem está ausente.

Os instantes em que aferi a imagem
que desenham as palavras de apreço
foram breves como se fizesse a viagem
com a simpatia, um precioso adereço.

A tua voz doce prolonga-se no espaço
e deixou eco nos meus ouvidos,
deu o timbre ao poema que faço
quando a imagem desliza nos sentidos.

Habitas no aconchego da memória
onde se renovam momentos de ventura,
o melhor desta benevolente história
é o sorriso calmo da minha ternura.

Não sei se entendes a brisa suave
que difundes dos olhos fascinantes,
mas não consideres pertinência grave
quando os sentidos estão distantes.

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
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.. VENTO MARULHENTO
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Na trajectória sinuosa e devastadora
desenvolve-se a força regeneradora
da razão fútil do nosso combate…
é fraco o estado psíquico de todos nós
quando sentimos os toques a rebate
no enigma dos genes de nossos avós.

Criativas faculdades me fazem viver
na ambivalência da generosa memória,
que anima a vontade deste meu querer
quando está longe a certeza da vitória.

Ainda prisioneiro da Páqtria-lusa,
acariciado pelo canto da deusa-musa,
vou-me despindo do místico preconceito
e lanço ao vento os incómodos espartilhos
que na guerra me deixam mal refeito
das fatídicas emboscadas nos trilhos.

A luta trava-se no conceito da verdade
onde a ambição cruel e desmedida
destrói os melhores valores da sociedade
e a ética enfrenta uma guerra perdida.

Macomia, Novembro de 1967
Joaquim Coelho
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 12

.. NATAL DOS DESENGANOS
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Natal de profundo tédio...
onde a minha tristeza se amortalha!

A esta amargura não há quem valha...
a solidão e a morte amedrontam
na hora da tormentosa batalha
que ensombram a luz dos meus dias.

Treme o coração e vão-se as alegrias
nem sei se esta paixão aguenta
um cenário com tamanha tormenta.

Os sonhos não passam de quimeras
neste Natal sem uma réstia de claridade,
com as dores do tempo da mediocridade
já nem sei porque me esperas...

Um Natal assim, longe do mundo,
a marcar o rumo negro e funesto
limitando o meu sentimento profundo,
atira-me para o ambiente que detesto:

bichos misturados com seres humanos,
mistificação das acções determinadas
e os confrontos de virtudes caluniadas
agravam os tormentos e os desenganos.

Luanda, Natal de 1962
Joaquim Coelho
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.. TEMPO DE PAZ
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Como as bestas no deserto
percorro os trilhos das matas tropicais
à procura do tempo de paz
onde possa amar no silêncio
da felicidade que invento.

Pergunto aos pássaros que passam
por onde é o caminho p’ra liberdade
que nos anime os dias de ansiedade
e traga o sonho em noite de cacimbo
onde os rumores do vento infiltrado
cantem a verdade deste desejo
descoberto nos lábios da lucidez
que a vida cultiva na tua nudez.

Antes de sucumbir à fúria das balas
queria passear pelo teu ventre
e apertar-te nos meus braços mansos
até descobrir a razão deste amor
que me cativa o coração.

E logo ao entardecer…
de regresso ao reboliço da cidade
vou embebedar-me de beijos
e espairecer na praia da Corimba
saborear o bico dos teus seios
como a natureza debica a terra
para a fertilizar com as sementes
que a espiga debita longe da guerra.

Luanda, Outubro de 1962
Joaquim Coelho




.. ACASALAMENTO
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Hoje estou disponível para o amor!
só de pensar que estás por aí…
fico feliz, receoso dos dias
em que me assalta a saudade.

Aí princesa… quem me dera
que o amor fosse uma quimera
espalhada pelo vento da manhã!
Pois perceberia que na Primavera
o som do chilrear dos pássaros
que se apressam a fazer os ninhos,
quando é chegado o momento,
simplesmente, porque o cio
atiça as labaredas do acasalamento.

Palpita-me que imitando os pássaros
vou encontrar os esconderijos secretos
para deleitar-me nos teus braços
irremediavelmente abertos ao amor
construído no silêncio do desejo.

Finalmente, verei a luz no teu olhar
que me guiará com a sensualidade
assumida nos contornos do corpo
a desnudar-se frente ao espelho
talhado dentro dos meus olhos…
onde um raio de vida inesgotável
se afirma nos sussurros de cada noite.

Luanda, Setembro de 1962
Joaquim Coelho
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.. POEMA dos DESENGANOS
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Embarcámos na noite escura,
como de costume...
em busca do amor que escasseia,
já pressentia
a noite que se refugia
no negrume dos sonhos sem mistura
dos gestos secos, inconfundíveis,
e a coisa dura,
na curta história dos corpos fechados
com emoções invisíveis…

corpos vadios e fingidores,
entrelaçados nas nossas dores,
passam o tempo em volta de nós,
bocas serenas quase sem voz;
roliça, danças feliz, quase louca,
se queres servir-te de coisa pouca,
aproveita que não é tua...
antes que eu saia, e apague a lua!

Luanda, Janeiro de 1962
Joaquim Coelho
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 28

O AZIMUTE

Olho as estrelas do sul
como guias do meu caminho,
é um longínquo quadro azul
onde não encontro o azimute
que me desvie deste deserto infernal
desta vida onde se passa mal!

Queria fugir da prevista degradação,
deste disparate de vida ajavardada
em que nos atolamos, perdidos
no destino que a governação traça
para indignação da nossa raça.

O sol atinge-nos sem dó
nesta terra pardacenta...
onde as vagas de calor e o pó
nos secam a garganta...
navegamos até ao esquecimento
da razão da nova jornada!

O pensamento voa com o vento
e as saudades... tantas, tantas
olhos postos na distância
que nos separa da terra-lusa...
emoções fortes da nossa infância
onde a vida era mais difusa!

Em cada momento desafio o futuro...
neste percurso difícil e sinuoso,
tudo fica suspenso... mais duro
e o corpo em movimento ondulante,
abriga-se à sombra do cajueiro mimoso,
para absorver a força dum elefante...

Assim peço que o milagre aconteça
enquanto tenho o futuro à espera,
quero que a vontade não esmoreça
porque da morte ninguém recupera!

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho
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.. ANOS PERDIDOS
.
Poderemos parar os tormentos
de tantos anos perdidos?…
são imensos os lamentos
onde os tiros ferem os ouvidos.

Espero que o anjo-da-guarda
limpe as almas do purgatório
e dos caminhos poeirentos…
trilhos do silêncio com farda!

Antes peregrinos cansados
do que defuntos encaixotados
com uma anotação mentirosa
a enganar os que choram a perda
sem um lamento de protesto!

Na guerra onde somos presentes
só os deuses estarão inocentes...

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho





... AS PALAVRAS
.
Mergulhado na ansiedade dos aflitos
sinto-me misturado na revolta
dos que vivem mergulhados no medo…
é nos olhos que ouço os gritos
dos náufragos presos à amurada
e o navio a despedaçar-se na escuridão
das vidas que não têm pão.

Parado como sentinela vigilante
uso as palavras como espadas
para desventrar o vício da paciência
que faz de cada cidadão emigrante
a viver nas mãos dos escroques
quando os trapaceiros das desgraças
montam ciladas em todas as praças.

Não será patriótico fugir à guerra
abandonar a labuta na sua terra
e seguir a aventura da emigração;
acantonados na estranja da fartura
que a pátria lhes nega na eleição
fogem das aldeias da noite escura
e deixam os filhos numa aflição.

Aqui distante dos melhores amigos
deixo as palavras de consolação:
procurai nas portas e nos postigos
os caminhos da ditosa liberdade
e defendei-a com natural convicção
todo o esforço merece a felicidade
no trabalho que enobrece a nação.

Beira, Junho de 1966
Joaquim Coelho
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.. COR MEUM
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Não lamentes a tua sorte
espírito que andas descontente…
o coração não teme a morte
mesmo na linha da frente.

Coração que vais sofrendo…
Acredita no futuro que desejas
não insultes nem faças queixas
e ama a vida que vai correndo.

Destes tormentos dolorosos
a que a guerra te obrigou
ficarão apenas sons ruidosos
e alguma mulher que te amou.

Quando o sol aparecer brilhante
iluminando os dias de candura
sentirás vontade de reviver
as memórias de vida dura.

Se repudias a falsa glória
sem remorsos por sobreviveres,
deixarás escrito na história
que cumpriste os teus deveres.

Não lamentes a sorte, coração!
saberás encontrar o caminho
longe do combate sem razão
e sem o ideal mesquinho.

Cada estrela indica um norte
e não dês queixas do vento,
se lutaste contra a morte
vencerás qualquer tormento.

Beira, Fevereiro de 1968
Joaquim Coelho
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 11

.. O MISTÉRIO
.
Estes hão-de ser os dias derradeiros
e o tempo me há-de compensar...
Ao embarcar no voo rumo a norte
a aeronave rompe o espaço para voar
até aos confins de Angola…

Lá em baixo vemos a paisagem
onde correm os rios férteis
que dão vida às fazendas do café
e abraçam as terras até ao Ambriz.

Pena é que o tempo conturbado
não traga a paz nos dias de sol…
a violência que se espalha nas matas
perturba os sonhos nas cabeças
onde saltitam imagens das meninas
que nos animam em dias de bonança.

O contra-senso está neste mistério
entre os trilhos das matas densas
e a tranquilidade das avenidas
onde o namoro é um caso sério
até ao dia em que o sangue derramado
nos deixa inertes e sem despedidas.

Luanda, Dezembro de 1962
Joaquim Coelho
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.. VIDA EFÉMERA
.
O mundo só ensina violência
e despreza pelas causas embarcadas…
nas danças monótonas do corpo
a juventude não sente na consciência
a razão da falta de amor!

A sociedade vive perturbada
porque a vida perdeu o seu vigor;
os que se vestem de soldados
seguem nos navios embarcados…
e os que ficam, riem-se da sorte
dos que têm os futuro incerto
em terras onde campeia a morte.

A primavera não chegou a florir
no mundo de movimentos trocados,
a guerra inflamou os eixos
e distorce a verdade e a razão…
o poder de risos tresloucados
mostra uma hipócrita comoção.

Vem a noite com alvoradas duras
para os humildes soldados…
sem luz, dormimos às escuras
nas encruzilhadas dos caminhos
onde andamos inconformados
temendo as balas e os espinhos.

Negage, Setembro de 1962
Joaquim Coelho



.. SAUDADE INTENSA
.
A saudade atravessa o espaço
com movimentos de dor fina
que se cruza no meu caminho…
se eu pudesse seguir teus passos
vencia a razão da saudade intensa
e corria, de braços bem abertos,
como os felizes ressuscitados
da imensidão das trevas…

Sufocado pelas parcelas de espaço
que nos causam tremendas dores
sinto o frio das cacimbadas
nas lágrimas dos olhos dormindo
nas noites mais inesperadas.

Será este destino intranquilo
a razão das emoções oprimidas
até aos dias felizes?
Dormimos longe dos afectos
que nos possam dar consolo
nas noites mais tranquilas
e gestos mais simples e directos
na ânsia do encontro sublime
que a saudade que nos sufoca
incendeie o amor que nos redime.

Sá da Bandeira, Março de 1962
Joaquim Coelho
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.. SILHUETA DO AMOR
.
Eu tenho uma verdade
que afago todas as noites…
longe da glória e da banalidade
acendo o pavio do poema
e todas as luzes me dão gozo
até à profundidade do instinto
sinto um brilho mais lustroso
quando bebo vinho tinto!

É aí que encontro o eco
do desejo que confesso…
os versos semeiam o caos
e incendeiam paixões adiadas
contra a praga dos calhaus
com batota nas batucadas
que me não deixam respirar
diante dum corpo esquivo
que me faz uma promessa
e mostra grande fulgor
disponível para o amor.

Querer sem o querer desejar
é cair no dilema da recusa…
outra coisa é saber esperar
estar dentro da madrugada
e sentir a vertigem do gozo
como se fora a noite derradeira
no limite dos meus sonhos
a burilar a silhueta do amor.

Luanda, Outubro de 1962
Joaquim Coelho
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 26

... SINAIS DOS VENTOS
.
A máquina da governação está viciada
e o povo naufragado na ignorância,
ingénuo e bondoso, vai sendo enganado,
na contemplação da vida asfixiada
e sem esperança no futuro desejado.

Sejamos audazes neste projecto duro
onde há gente a viver sem dignidade,
aceitemos os sonhos de independência
determinante para o sentimento puro
com o fim dos impérios na sociedade.

Não há razões nos mitos da burguesia
para ensombrar os séculos de história,
a guerra fomenta o ódio e a miséria
quando a juventude vive na fantasia
gerada em tempo de trágica memória.

É tempo das missões mais frutuosas
nesta África de lendas bem burguesas,
muitos gentios e audazes guerreiros
a matar as crenças mais tenebrosas
dos feitos pelas mãos portuguesas.

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
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... SINAIS DO ÍNDICO
.
Os sinais são de assombração,
gestos de contornos invisíveis
acalentados pela mística exaltação
indiciadora de tempos gastos
nos ideais libertários insatisfeitos.

Haverá algum contentamento
com tanto desperdício de ocasiões
no gesto geográfico e entendimento
das descobertas simbólicas dos povos
com estigmas da colonização presente?

Visão certa do contemporâneo projecto
De feição fraternal ao brio luso-africano
Baseado nos intrínsecos conhecimentos
tendo a arte e a cultura como objecto
do espólio valioso dos descobrimentos.

Iluminem-se as mentes dos arquitectos
para nos libertarem dos dramatismos
que a história teima em inventar…
o planeamento não nos deixa quietos
amarrados às teias dos dogmatismos.

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho


.. TARIMBEIRO
.
Sem batuque e sem mulher
o preto chora e lamenta…
vai ao deus-curandeiro
saber o que o atormenta,
mas gosta do fazendeiro
que dá fuba e alimenta.

Com lamento e sem batuque
o preto volta à sanzala
lá no Xipamanine
e o batuque sempre fala…
tem saudade da mulher
gente boa de coração
bota batuque na palhota
p’ra mais sentir e viver
o ritmo de cada canção
em toda a ilha e ilhota.

Lourenço Marques, Fevereiro de 1966
Joaquim Coelho
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.. SINTONIA DO AMOR
.
Neste sonho de vertigem
sinto o teu corpo carente
selvagem como a fuligem
sedento como uma esponja
na lubricidade do que sente
bebida a tonificar a secura
e doce como amora madura;

Os lábios vibrantemente febris
colados como duas armaduras
na minha boca de intenso ardor,
afinam os gestos mais subtis
sintonia dos corpos em amor!

Afago os teus seios palpitantes
que se empertigam mimosos
quando neles debico o suco ardente
e delicio os meus dedos sedosos
até à fronteira húmida e quente.

percorro o teu corpo pelos quadris
como uma corrente electrizante
e logo acendes a luz no esplendor
do teu enlevo reconfortante;

fundem-se pensamentos e sentidos
num orgasmo longo e relaxante...
os corpos no leito estendidos,
saboreiam a dádiva aos molhos
que brota dos lábios rosados;
silencia-se o brilho dos teus olhos
enquanto levemente fechados;

mas vejo que a lenta escuridão,
que se abate sobre a cidade,
alimenta em nós uma ilusão
perturbadora desta felicidade!

O confronto com a realidade
ainda apoquenta as noites de luar,
porque falta solidez e verdade,
quando a dúvida nos pode afastar!

Alto Maé, Fevereiro de 1966
Joaquim Coelho
.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Poemas em Tempo de Guerra 10

IN MEMORIUM

Ó companheiro, como podes entender
a razão das cargas de artilharia
que explodem nos morros de Quicabo,
quando o teu corpo já a desfalecer
te mata a esperança de ver o dia?

Ficou decepado o esforço na convicção
de cumprires um dever com valentia,
quando o destino cruel e inseguro
te cortou a seiva na veia do coração
e te deixou entregue à fatal letargia.

É uma luta que nos marca o futuro
e todos os dias traça a nossa sorte,
este arrastar nas picadas dos Dembos,
um caminho sempre incerto e duro
com vários matizes da cor da morte.

Nesta luta flamejante e tenebrosa
na fatídica emboscada ardilosa
a sanha da morte foi vencedora:
o Quiquiri sentiu as derradeiras dores,
enquanto colhia as flores
fugiu-me uma lágrima desoladora.

Quicabo, Março de 1963
Joaquim Coelho
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... GRAVE HUMILHAÇÃO
.
Um corpo sem emoções fica amorfo
como o estrume que ainda adoba a terra!
Quem poderá esquecer as emoções da guerra,
as caminhadas para o infinito das planícies
e as picadas nas vastas florestas de África,
onde sofremos inquietações sem medida.

Onde estão os rostos que se banharam
nas lágrimas tristes da despedida?…
e os lenços a acenar no cais de embarque,
ou os braços teimosamente abraçados
aos ente queridos que embarcaram
contra a vontade do tempo da sua sorte...
- talvez fosse o embarque p’ra morte!

Quem esqueceu o som do porão do Niassa
quando dava as braçados no rio Tejo?
a memória é chama que não passa
sem lembrar as marcantes emoções
carimbadas com o sabor do último beijo
já com a saudade a inflamar as paixões!…

O soldadinho podia regressar encaixotado
- enrolado na bandeira dos heróis -
com um louvor a atestar que o coitado
teve azar quando entrou nos paióis!
E pelos seus feitos mais nobres,
a familia teria medalha no 10 de Junho,
com direito à pensão dos pobres,
que o Salazar atestava pelo seu punho.

Em vez do orgulho reconhecido
aos sobreviventes destas jornadas,
lastima-se o esforço imerecido
de tantas vidas por aí abandonadas.

Sente-se muita frieza encoirada
nas rudes memórias enraivecidas;
uma vergonha no medo encapotada
das verdades mal percebidas.

É tempo de mostrar a toda a nação
o sonho destes homens-soldados:
acabar com a grave humilhação
para serem livres e não castrados!

Luanda, Fevereiro de 1963
Joaquim Coelho


... ROSÁRIO DE SAUDADES
.
Lá longe, no país dos meus sonhos,
há tantas vidas desnutridas
muitas almas incendiadas
e miúdos que não vão à escola!

As estrelas alumiam as searas
que mãos inspiradas no trabalho
tentam transformar em pão.

Em cada tarde de canícula
sinto que o corpo resiste
à guerra que não dá tréguas.

Não tenho nada para dissipar a dor
que envolve a alma no novelo
da conjura dos tempos sem amor…
é um ciclo brutal e desumano
a defraudar a esperança
na árdua tarefa de dominar o terror.

A força desta crença é persistente
e inspira a razão da vontade
que se afirma em cada combate
prolongado até de madrugada;
a agonia dos corpos feridos
atiça a raiva que acorda
a realidade dos mortos consentidos
na voragem da brutal explosão.

E lá longe, onde o povo geme
à míngua do sustento a pão,
libertam-se os nobres sentimentos
dos que querem defender a Nação.

Ficam os sinais do massacre
encravados nas nossas memórias
e na alma, um rosário de saudades.

Negage, Maio de 1962
Joaquim Coelho
#########
Poema à professora Maria Ondina Braga:
...
.. ONDINA
.
Silenciosamente
flutuando de mansinho
eternamente…

sobre a água delicada
vai a vida, perdida
quase triste
lentamente
morrer desamparada.

Mágoas despidas
nas águas não as tem.
Sombras incertas
mistério do amanhã
é o que resta
na folha amorosa
que espera ansiosa
o encanto do vento
nas águas agitadas
docemente…
o momento a rigor
de repente…
o deus do amor!

Luanda, Abril de 1962
Joaquim Coelho
.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 25

.. OS DESTERRADOS

Miteda de trincheiras recortada
Onde todos os dias são contados
Em desespero da vida amortiçada
Nos homens de corações aterrados.

Dores plangentes do porvir
Que aos soldados dão tristeza
Quando a vontade de partir
Se funde na miséria da pobreza.

Nos caminhos distantes e inseguros
Os corpos avançam torturados,
Quando a impunidade dos maduros
Maltrata os seres desumanizados.

Enfrentamos a aspereza do capim
Granjeando laivos de vida e rumo
Para o abismo que espera por mim
E ensombra a razão do meu prumo.

Os olhos turvados, semi-cerrados,
Não atinam com o desejado bem
Porque a malícia dos refinados
Limita o horizonte a quem convém.

Porto Amélia, Janeiro de 1967
Joaquim Coelho
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.
.. DETONAÇÃO

Tanta dor e sofrimento a desabar
por cima dos corpos que respiram
o sentimento da negação a gritar
ao longo das picadas de Miteda…

ao ver o estrago da granada detonada
invoquei aos deuses da selva densa
que nos libertem da besta assanhada
até nos aliviarem deste inferno
para que o sol e alguma esperança
sare as feridas que nos doem…

enterrados os mortos na santa campa
e entregues à liberdade das aves
amparámos os feridos graves…
enfermos duma estranha guerra
já embarcam para a sua terra.

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho


.. SAUDOSA MUSA

Como uma estrela cadente
passaste fugaz no meu caminho,
foi um tempo bem vivido…
e tu soltaste-te da minha vida
como uma estrela na constelação
que se apagou no espaço da emoção.

Se acaso pudesse encontrar-te
entre tantas outras estrelas belas
revolveria o mundo até ao eixo
e ao encontrar-te saudosa musa
saberias o mal de que me queixo
por ter regressado à terra lusa…
mesmo que as balas assustassem
tivemos tempo para a despedida
junto ao mar que nos separou
na derradeira carícia consentida.

Lourenço Marques, Março de 1968
Joaquim Coelho
>>>>>>>>>>
.
.. FRUTA GOSTOSA

Pareces uma ninfa sonhada
de contornos belos e formosos
no palácio das ilusões sentada
minha musa de sonhos gostosos.

Esses teus olhos cintilantes
com o brilho dos diamantes
são duas safiras com jeito
que me deixam satisfeito.

As faces coradas a primor
embelezam os lábios sedosos
e o semblante gentil e sedutor
desperta desejos maviosos.

Esse sorriso que me encanta
na certeza do que mereço
lampejo de amor que me espanta
em cada beijo que não esqueço.

Cada vez que te cingi ao peito
a respiração acelera airosa,
mas dás sempre aquele jeito
servindo a fruta gostosa.

Beira, Dezembro de 1967
Joaquim Coelho
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 9

... LUTAR É VIVER
.
Quando os ventos sacodem o mundo
e se desprendem novos ideais,
o sangue endurece as veias
dos corpos poluídos e destroçados
pelas mais tenebrosas teias
urdidas nos domínios dos opressores
que tramam a vida dos desgraçados
e causam muitas e variadas dores.

Ao ver os olhos tristes e molhados
com lágrimas furtivas e cruéis
sinto que o declive dos morros
nos quebra os derradeiros anéis
da vida que nos liga à terra
perdidos nas picadas de Quitexe
sentimos os horrores da guerra
metralhando o lado da vertente
dentro da alma que a gente sente.

O movimento de forças estranhas
causa estranheza e alguma intriga…
alguém anda a comer as entranhas
dos corpos corroídos pelo tempo
onde o cacimbo causa fadiga!

Enquanto somos, para viver
lutamos contra o tormento
que em nós faz parte do querer.

Quitexe, Novembro de 1962
Joaquim Coelho
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.
.. NOITES DE SAUDADE
.
Cai a noite na sanzala do Piri
e o cacimbo arrefece o corpo vivo
aos soldados que estão aqui
nas terras do café, em Quibaxe,
cobertos pelo manto da saudade
esperando que o corpo relaxe
e aceite tudo com normalidade.

Lembranças nas memórias, espelhos,
dos passos em volta do destino
entre a angústia e a esperança
de voltar aos sonhos de criança
sentado no colo de minha mãe
a quem chamo minha santa
mas com saudade, tanta, tanta.

Amor que ficou chorando no cais,
só me resta a saudade do beijo…
sem saber se a encontrarei mais
tantos são os dias de abandono
sem aquele amor que protejo
fazendo promessas ao patrono
para que acabe esta ansiedade
e eu possa viver em felicidade.

Quibaxe, Novembro de 1961
Joaquim Coelho

Adicionar imagem

... NOITE SERENA
.
Como as flores adormecidas
nos canteiros do jardim,
as nossas mãos aquecidas
numa ternura sem fim
afagam com amor profundo
e os corações ternos a vibrar
perante os olhos do mundo,
sabem como é bom amar!

Gostosa amora morena
plantada na minha vida,
tens a verdura da açucena
e sensualidade sem medida,
tonalidades de todas as cores
para adornar nossos sabores...

Serás a minha princesa
com a graça de nosso senhor
porque creio na certeza
da força do sublimado amor.

Estás sempre comigo, eleita
encarnação dos meus sonhos
porque a felicidade espreita
cheia de encantos medonhos.

Espero um futuro risonho
na vida tranquila e feliz
para viver aquele sonho
e ter aquilo que sempre quis.

Luanda, Fevereiro de 1963
Joaquim Coelho
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LUANDA, até ao amor
Em poucas semanas percorremos um longo e sublime caminho até ao amor. Sem definirmos condições, deixámos que uma amizade fragmentada em períodos de fraca intensidade de afectos e infinitas variantes nos encontros nos conduzisse ao cosmos onde o amor produz a alegria que nos conforta o corpo e contamina a alma. Sem caprichos emotivos, sinto um envolvimento contagiante a despoletar o poder dos desejos condensados na pertinência das vontades. Cada momento dos encontros aumenta em nós o desejo de identidade que mais nos aproxima do estado de plenitude que a alegria sentida produz.
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... NO JARDIM DO COSTUME
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Ainda com o corpo cansado,
passo pelo jardim do costume!
Chupo um rebuçado de mentol
sem perceber que estou enamorado.

Pendurado no sabor da esperança,
ali fiquei o fim da tarde…
a brincar com os queixumes
e gemidos do meu coração!

A ausência propícia as traições
se há compromissos envelhecidos…
Apoiado na dolorosa verdade
fiquei sentado no sítio do costume!

Tu chegaste visivelmente triste…
o teu corpo abrasava como lume
e logo apoiaste a cabeça no meu ombro.

Teus olhos irradiavam sofrimento
contraída de encosto ao meu peito
manifestavas grave estado febril.

Perplexo e mal refeito da emoção
senti os olhos em comoção…
tranquilizei-me nos teus lábios
e fiquei embriagado de beijos
sabendo que os glóbulos sábios
ajudem a temperar os desejos.

Luanda, Maio de 1962
Joaquim Coelho

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 24

.. A DESCRENÇA
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Este meu partir para o combate
inigmático… em busca duma razão
para atestar a causa de quem se bate
numa guerra decadente…
como os demais, parto descontente
por saber que há monopolistas
que atiçam os retrógrados colonialistas.

Deixem crescer a natureza do capim
e abandonem o fogo das armas
que levam aos caminhos da descrença.
Há uma forte razão em mim
na convicção da nossa presença;
mas os canhões nada produzem
e as balas não são boa sentença.

Trocar a metralha pelo pão
e perceber quanto a guerra é injusta
não é nenhum acto de humilhação
nem ficamos sujeitos à ameaça
do destino apagado e cruel
que causa fome e muita desgraça.

Mueda, Janeiro de 1968
Joaquim Coelho
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.. SEPULTUS
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Até a fuga dos espíritos é atribulada
quando os corpos agonizam na picada!

Sentem-se nos macabros sinais
dos caixões, vetustos e bizarros
despidos de adornos formais...

Então, lá das profundezas
sai um grito agonizante
e uma voz longa, bem no fundo,
quebra o silêncio dilacerante:
Anda... cadáver imundo!
toma tua espada de fel
e destrói teu destino cruel...”


E um corpo putrificado
perdido no invisível da escuridão
deixa os adornos da sepultura
e brada firme, mas resignado:
Senhor, se tens compaixão
pelos que sofrem amargura,
faz desaparecer a ingratidão
que semeia o ódio e a miséria,
que haja paz e não a guerra
e deixem-me na sepultura
onde por descuido habito
...”

Terminado o fervoroso grito,
mais combatentes partiram...
voando por cima dos túmulos
quatro corvos fugiram!

Mueda, Setembro de 1966
Joaquim Coelho



.. MISTURAS CONCLUSIVAS
.
Juntei muitos dias de sofrimento
nos confins da selva maconde
alguns momentos de amargura
na hora de enterrar os mortos
espalhei os olhos na savana insegura
longe da pátria penitente
imaginei um mundo para toda a gente
espalhada no imaginário do universo;
incentivei os indigentes desertores
da generosa ideia de progresso!

Caldeei a alquimia para ver a reacção:
explodiram as lágrimas de raiva
derramadas sobre as espingardas
olhos tristes daqueles soldados
em bebedeiras de confusão...
tristonhos fantasmas fardados
com pensamentos longínquos
mártires dos feitos antepassados.

Destilei a ilusão na castanha de caju
e descobri o cruzeiro do sul...
vislumbrei a rota para o regresso;
vou voar serenamente no céu azul
e distribuir tudo o que mais peço.

Nacala, Agosto de 1966
Joaquim Coelho
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.. AMOR PERDIDO
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Valeu a pena abrir os olhos
ao ouvir o rumor do vento uivante
sussurrar nos meus ouvidos…
foi precisamente nesse instante
que te abeiraste do meu rosto
e atiçaste o fogo da paixão.

Não disseste uma só palavra
que desgostasse o meu coração,
devolveste-me a esperança
que as aves já desperdiçaram
nos seus voos desordenados
por cima da minha cabeça.

Ainda sinto o perfume nos dedos
por tocarem as mãos aveludadas
que me afagaram o rosto
em jeito de sublimado amor,
gestos que não vou esquecer
enquanto souber bem viver.

Antes de partir, o meu sonho
delineou um futuro promissor:
recuperar o tempo perdido
em cada momento que disponho,
deixar as convulsões do mundo
aos cuidados da justiça
e que o sentimento profundo
nos resguarde dessa liça.

Despido das terras de África
vou deixar a tua mão…
o olhar não faz mais sentido
e estás ausente nesta ilusão
porque o poema é indiferente
á dor que sinto no coração.

Beira, Março de 1968
Joaquim Coelho
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sábado, 7 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 23


.. HORA DO CAOS
.
O tempo respira a angústia do dia
em que quis melhorar a harmonia
das imagens guardadas na cabeça.

Não vou inventar o drama que pareça
confrontar o mal e o caos da guerra,
nem os corpos esfacelados a fugir,
espalhando o sangue pela terra!

Estaremos numa guerra a fingir...
com soldados espetados no chão,
estilhaços cortantes como espadas
que vão ceifando as nossas vidas
embarcadas num estranho avião?

Sagal, Junho de 1966
Joaquim Coelho
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... ESPAÇO FRIO
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Sofro por causa da cruel certeza
que mata em cada manhã suspensa
das estrelas que se deslocam apagadas
e me deixam nesta escuridão… só!

Deparo com mais um corpo na tumba
à espera que a agressão sucumba
aos combatentes que metem dó.

O combate é duro, para sobreviver,
aos ruídos da raiva que agudiza o saber
e assimila a razão das dúvidas;
as vozes camufladas explodem
na subversão lógica das gargantas
que contestam o espaço insubmisso
dos mortos no meio das machambas.

Nos rostos dos companheiros tensos
desliza a raiva no ranger dos dentes…
serão estes sinais suspensos
que nos fazem seres diferentes?

O reflexo do aconchego dos corpos
que dormem à míngua dos deuses
não me deixa descansar no sono
que preciso reparador e calmo.

Olho ao longe… vejo as fronteiras
que tenho de passar aos solavancos,
desafio a mordaça que me oprime
e arrisco ser enjaulado na verdade
que a convicção fervorosa redime
na fria brandura da solidariedade.

Estreitam-se as malhas da opressão,
causa da minha tristeza e revolta,
ao escrever os sinais da convulsão
em cânticos da liberdade que conforta
a minha alma em cada amanhecer…
nos labirintos da guerra vou sobreviver.

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho






.. CARTAS AO VENTO
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Quero viver a ironia do equívoco
como quem se afoga
na verdade do sofrimento...

antes de mim, companheiros,
outros vegetaram... e o seu lamento
ecoou pelas savanas,
grito dos heróis verdadeiros
com os corpos em pantanas!

Enquanto equivocado,
estou à mercê da tragédia
das brutais emboscadas,
e também sofro um bocado
quando já sinto a masmorra
como as almas penadas.

O vento sopra noutro sentido
e já os salazarentos se afundam…
não me tirem o que é permitido:
os sentimentos que abundam.

M. Praia, Setembro de 1967
Joaquim Coelho
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.. DESPERTAR
.
Nesta amálgama de fantasia
ensombram-se os sinais de alegria
traçando linhas divergentes,
razão de tantos descontentes,
quando sentimos fugir o tempo
num dialogo morno, sem alento!

Porque estamos a ficar distantes
do sentimento dos amantes,
e do rumo que a vida nos aponta
é tempo de reflectir, tirar a conta,
e render honra à evidência
que nos faz pensar com prudência.

Na hora do entardecer venturoso
ficámos como o pássaro ditoso
a olhar o abismo da incerteza
e presos no palácio da vileza…
se a vida não vislumbra felicidade,
vai amor… acarinha a liberdade.

Tenho vontade de subir ás estrelas
aproveitar as coisas mais belas
e combater o premente capricho
que envolve a vida no lixo.
Antes quero uma pétala florida
e um coração para me dar guarida.

Beira, Agosto de 1967
Joaquim Coelho
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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 8

.. NOVOS VENTOS
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Não é preciso ser um iluminado!
basta perceber o fogo cruzado...

a essência da transparência do sol
mais cintilante na cidade aberta
e as ideias da gente feliz;
o sonho iluminado sempre acerta
na verdade que deus quis.

Enquanto caminho na escuridão
encontro gente ainda triste
vagueando na contra-mão...
com pensamentos amorfos, afogados
nas bebedeiras de tanto infeliz,
perdidos, quase tresmalhados,
nos rastos de qualquer demanda
que os tire das noites de Luanda.

Vejo os camaradas inconformados
crispados pela estranha euforia,
sem grande vontade de combater...
sofrem dos perigosos desalentos
e das traições de cada dia:

são graves os insultos e os tormentos
da cidade às matas de cada alvorecer
mesmo com a afronta dos novos-ricos,
em qualquer dia podemos morrer
porque entendemos a força dos ventos
que vai partindo as asas dos penicos
mas ficam livres os pensamentos…

O imparável evoluir das armas inimigas
nefasto efeito da cumplicidade
aumenta a dor das nossas fadigas…

Adensa-se uma grave intriga na cidade
que nos causa intensa dor difusa:
atiçam ondas de ódio contra a malta,
desde os bares até aos Coqueiros...
porque nos toca fundo, sem recusa,
aceitamos o gozo que nos faz falta!

Bem longe dos ambientes foleiros,
contemplamos o corpo da moça bonita,
mística de encantos brejeiros
e nele mergulhamos em dose infinita.

Quicabo, Abril de 1962
Joaquim Coelho
««««««««««««
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... NEBLINA VERDE
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Há sempre uma estranha emoção
quando entramos em nova missão!

Ao longe, a Pedra Verde atemoriza;
seus cumes quase tocam as estrelas
e a primeira tentativa de incursão
deixa em nós uma ideia indecisa:
porque se amachucam as flores belas
que a persistente neblina em união
alimenta na verdejante encosta?

A distância para a conquista da colina
é uma paixão determinada e paciente;
os aviões bombardeiam sem resposta,
as bombas paridas do seu bojo
rasgam as rochas... esconderijos
e o fogo alastra no capim rasteiro
com gritos longínquos da morte.

Mordemos os lábios numa inquietação
enquanto se aponta o morteiro
no milimétrico tiro de sorte
para ajudar na diabólica devastação.
Rasgámos o caminho até ao covil,
contra o sol que se inclina embriagado,
e a vontade de silenciar o inimigo
faz-nos avançar no seu encalço
mesmo correndo o grave perigo
de sermos apanhados no percalço
das fatídicas emboscadas dos estupores.

A noite aproxima-se negra e sombria
e mais se aguçam nossas dores...
alguns já dormem com a boca fria
e toda a caravana esmorece a praxe.
O arrojo alarga a perigosa viela
para os movimentos do Úcua-Quibaxe;
é como se abrisse mais uma janela
para passarem cargas de esperança,
nas viaturas da terrível caminhada,
em peregrina missão de bonança
até aos confins da encruzilhada.

Quicabo, Junho de 1962
Joaquim Coelho



.. SAUDADE DUMA CARTA
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Escrevo esta carta
para mitigar minha dor
e apagar a saudade
que me atrofia os dias
confrontado com a verdade
da lonjura do espaço
onde deixei meu abraço,

não vou limpar da memória
os dia bem passados
nas escadas das Fontainhas
e nos bailes de S. Vítor
a comer saborosas sardinhas,

parecíamos dois passarinhos
a saltitar as escadas
para descer até à linha
e ver passar os comboios
sobre a ponte D. Maria,

não sei se voltarei um dia
levado pela tua mão
como me animavas outrora
nos bailes de S. João,

só espero uma carta tua
antes de seguir para o norte
com um beijo de consolação
para melhor enfrentar a morte.

Bembe, Fevereiro de 1962
Joaquim Coelho
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... MARIPOSAS
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O encanto das formas do corpo
engravidam o olhar dos transeuntes
que não encontram desejos de amar
e vivem longe das madrugadas
em que se exalta o amor…

só quando olhamos o infinito
percebemos a razão do encantamento
das mariposas na dança sensual
dentro do olhar profundo
das divindades dos sonhos
que invoco nas noites de amor.

Há gestos indecifráveis
sempre disponíveis para restituir
o brilho às noites com luar
nas águas mansas da Baía,
as mãos passeiam serenamente
nos cabelos sedosos da donzela
que sobressai duma figura
projectada na porta do Baleizão…
as mãos afagam com doçura
as carnes mimosas, em combustão
até à colheita do amor.

Luanda, Agosto de 1962
Joaquim Coelho
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