segunda-feira, 19 de julho de 2010

Poemas dos Tempo da Guerra 6

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.... FATALISMO
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Vou partir para o mato!
na despedida não tenho ninguém
a dizer adeus…
olho á volta e fico espantado
com os apetrechos de guerra
horrorosos e desoladores,

os camaradas fumam despreocupados
sem se darem conta desta agonia
que nos causa melancolia.

É uma madrugada cacimbeira
os aviões roncam estrondosamente
com os motores potentes
e acordam a cidade sonolenta…

de dentro do avião que corre veloz
e levanta o focinho para o norte
deito um último olhar à base
e vejo as máquinas ferozes
de silhuetas sombrias
prontas a transportar a morte!

Começo a ficar indiferente
às coisas boas da cidade
que vai ficando cada vez mais longe…
faço parte deste cenário
onde companheiros de brumas
puxam lufadas de fumo
espalhadas no avião mercenário.

O meu último bocejo de esperança
faz-me parecer um corsário
nos meus tempos de criança!

Negage, Março de 1962
Joaquim Coelho
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... NOITE INFERNAL
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Esta mágoa em noite de cacimbo
martela lentamente o pensamento
no instante em que ruge o avião
partindo o silêncio com estrondo...
as bombas vomitando o fogo
que a combustão do napalm espalha
nas aldeias de fantasmas famintos
onde morrem todas as esperanças
da gente pobre e franzinas crianças
que tentam fugir de qualquer jeito
- vergonha da pátria sem o proveito!

Meus olhos brilharam de espanto
ao verem a sanzala em chamas.
ali sufocadas no calor das labaredas
estão as crianças de choro abafado,
bombas a rasgar sulcos nas veredas
por onde se arrastam os corpos
queimados num sofrimento danado.

Quando a consciência salta o orvalho
Por um lapso de tempo vejo o inferno
com as bombas riscando os céus...
o rebentamento de efeito medonho
rasga as palhotas com gente dentro
e o aniquilamento daquela sanzala
deixa-me preso à sequência da morte
com a garganta presa e sem fala.

Um cheiro intenso ataca as narinas
perdendo a seiva nas balas de fogo...
diluiu-se o medo do alastramento
de tantas queimadas feitas à toa,
o absurdo é de quem manda no jogo
está muito longe, talvez em Lisboa!

Onzo, Julho de 1962
Joaquim Coelho.

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... INCERTEZA
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Dor amarga na languidez do mundo
que tolhes o espírito benevolente…
deixa caminhar o corpo moribundo
causticado pelo vento das nortadas
vindo da lonjura das montanhas
engalanadas de sonhos perfumados;
deixa-me descobrir a solidão
que vai entrando pelas frestas
e castiga os pobres do sertão.

De Nambuangongo a Quicabo
os caminhos em declive sinuoso
deixam as poeiras tresmalhadas
asssombrar os horizontes distantes
onde disfarçamos esta agonia
dos sulcos na carne esfacelada
movida nos gestos comunicantes
dos combates em cada novo dia.

Afagando a espingarda em riste,
as mãos sentem os espinhos
cravados na dor longínqua
que se dissolve em torvelinhos…
o rosto coberto de pó, desfigurado,
segura os laivos de esperança
que trazem o coração aconchegado
aos meus sonhos de criança!

Quicabo, Julho de 1962
Joaquim Coelho
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ENSEADA

A noite vem devagar…
ao longe
estão as enormes queimadas
majestosas labaredas a brilhar
desfazendo o capim descuidado!

Oiço além as batucadas
do chingufo a murmurar
marcando a magia do feitiço
que mexe as vidas trocadas
e só a saudade faz sonhar
com o fim de tanto enguiço.

Na enseada já vejo um navio...
a esperança do meu desejo
é navegar até ao tempo frio
levando comigo o último beijo.

As estrelas ficam nos teus olhos
como eu ficarei em ti
brilhantes como as lantejoulas
dos outros sonhos que já vivi.

Luanda, Janeiro de 1963
Joaquim Coelho

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