segunda-feira, 26 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 7


JOAQUIM COELHO: “Diário de Um Sonhador”
Os pássaros desafiam as estrelas pardas sem saberem invocar as preces que os deuses apreciam. Como podem usufruir das mordomias, quando os soldados sofrem os efeitos dos estilhaços a marcar os corpos. A inquietação confunde-se na vertigem do trauma que as cicatrizes marcam no pensamento do futuro.
Para quem perde uma perna, numa guerra que detesta ou não compreende, pode significar a amputação de todo o futuro – não perde a vida mas já não vive. Esta ameaça é assustadora e limita a capacidade de viver por objectivos. Sinto-me ofendido no sentido em que concebo a justiça.
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... EM CIMA DO MEDO
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Com os olhos fechados sem fingimento
aos corpos expostos ao sofrimento
estendo a mão sem nenhum remorso.
Corpos boiando em cima do medo
que a morte ilude sem nenhum segredo
nos dias de marcha e mochila no dorso.

Ameaças são muitas que o corpo sente
quando a metralha ataca de frente
e os soldados pressentem a morte
rompem o cerco aos tropeções...
acaba o sossego, com as explosões,
mas o corpo intacto agradece a sorte.

Levanto a bandeira ao som do batuque
que nos traz a magia fácil, um truque
para comemorar a grande vitória.
Ameaças são muitas aos antepassados
nos dias traiçoeiros de ventos trocados
morre a juventude, apaga-se a história.

Negage, Julho de 1962
Joaquim Coelho
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... CACIMBADOS
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Seres humanos a deambular
sem brio para reclamar...
debilitados, suspensos da vida
à mercê duma bala perdida.

Perturbados, moribundos
resignados, na sua dor...
desamparados, longe do amor
destemperado pela guerra.

Homens com meios sonhos
humildes, perdidos na terra...

os suplícios são medonhos
na condição de grave fraqueza;
por causa dum império perdido...
e na luta por falsa grandeza
fica este vexame escondido.

Madimba, Janeiro de 1962
Joaquim Coelho





... FASCINADO
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O teu olhar meigo e fascinante
de cintilar maravilhoso
me enfeitiça em cada instante
que procuro teu corpo sedoso
a deambular com altivo primor
ao sabor das emoções
nas paisagens do amor…
é tão bom saber que a vida
oferta amor aos turbilhões
vindo da tua boca querida.

Tens um feitiço que me prende
aos beijos profundos e gostosos
quando a gente bem entende
cingir os corpos maviosos.

Temos o dom da sabedoria
gravado nos sentimentos
e a ternura sem fantasia
para acalmar os tormentos.

Luanda, Setembro de 1962
Joaquim Coelho
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CARTAS 5 - O dia de Natal passou por mim sem deixar um lampejo de alegria.
Mas o mundo há-de dar voltas e ser melhor no próximo Natal.
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... EU TIVE UM SONHO
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Eu tive um sonho... e tu estavas lá!
Era um sonho tão belo
que vou procurar vivê-lo
no dia em que te possa encontrar.

Como andrajoso cavaleiro andante
é rude a vida que passa por mim
em busca da certeza para repousar
e retemperar as vitais energias
que o tempo obriga a desgastar.

Recuso a sorte dos maus dias
com pelejas furtivas e graves…
almejo a paz e o sossego da vida
para os caminhos mais suaves,
mas sou brindado com o desdém
das horas tristes sem medida
onde a saudade está também.

Toto, Março de 1962
Joaquim Coelho
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