sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 5


.. INSÓLITA INVASÃO
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A noite vai alta e agitada
toda a tropa se movimenta,
na pista bem mobilizada
uma bazukada se apresenta.

Uma invasão formigueira ataca
e logo os cães começam a ganir,
aí o sargento Ferreira destaca
a voz firme mandando fugir...

Ainda não vemos o inimigo
e já sentimos a voz da derrota,
pois ser herói é um perigo
e empenho na guerra é janota.

Sinto o queixo junto ao chão
e ouço gritos alucinantes,
atiço a raiva do meu cão
logo avançamos triunfantes.

Na incerteza das soluções...
recolhemos às toscas trincheiras,
abrandam os tiros dos canhões
e ali ficamos como as toupeiras.

S. Salvador do Congo, Janeiro de 1962
Joaquim Coelho
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... DESVARIO IMUNDO
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Aquele soldado rijo e afoito
crente em vingar o massacre
e abater os criminosos mentores
das mutilações escabrosas,
com violações animalescas,
e dos estripadores de inocentes,
não estava embriagado de raiva
mas com sentido de justiça!

Agora, mais calmo e sereno,
percebe a razão da sua sorte
e porque já sente o veneno
das degradantes confusões
que vão espalhando a morte!

Descoberto o covil dos ladrões,
esmoreceu a vontade de lutar
e enfrentar tantos perigos...
porque a Pátria é outro lugar
onde se passeiam os inimigos.

À sombra dos soldados destacados
para os confins do inferno...
desviam-se os víveres dos desgraçados
- alguns já dormem o sono eterno –
nos acampamentos do desterro
onde a vida é um grave erro!

Perante tanto desvario imundo
sinto que sou outra pessoa, atento
às notícias que mostram o mundo
moldado aos exploradores do vento
que vão surripiando esta terra...
e nós vivemos os males da guerra.

Mais cultivado e desperto p’ra vida
vou combater os mercenários
causa da nossa desgraça e morte.
Hei-de cumprir a sina prometida
para difundir os nobres ideários
e regressar a ti, por minha sorte.

Toto, Março de 1962
Joaquim Coelho


.. CARTA do LONGE
.
Aqui onde por descuido vivo, as coisas continuam insípidas e perigosas. Raros são os dias em que não lamentamos a morte de algum militar que enfrenta as vicissitudes da guerra. No entanto, continuo vivo e actuante, crente na bondade da natureza e nas virtudes que nos fazem viver para além do sofrimento. Minha querida, sempre tive esperança de que seremos recompensados com a desejada felicidade. Por isso não vamos desfalecer perante as barreiras que nos limitam as vontades.
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Estamos em viagem permanente
e não devemos renunciar à vontade
nem à esperança que a gente sente
para alcançar a plena felicidade.

Amar é vencer com afagos
aquilo que nos é querido
é caminhar sobre os lagos
quando a vida tem sentido.

A distância não nos pode fechar
nas encruzilhadas desta guerra
enquanto tiver forças para lutar
hei-de regressar à nossa terra.

E a glória de vencer com amor
está nas virtudes da esperança
que renovamos com fervor
até ao dia da esperada bonança.

O fluxo do sangue ardente
movimenta o coração sonhador
para o aconchego permanente
do meu único grande amor.

Chega de ingrata ausência
nesta sequidão desoladora
vamos reavivando a paciência
até chegar a ternura criadora.

Está próximo o dia sonhado
para que os corpos carentes
promulguem o fim do passado
e nos devolva os sonhos ardentes.

Luanda, Janeiro de 1963
Joaquim Coelho

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... NOITE DO MERENGUE
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Coisa boa, há festa no caniço,
coisa linda onde há magana
noite com mulata de feitiço
corpo em ritmo que não engana.

Sente-se o leve cheiro da mulenda
trespassando o ripanço do beiral
muito vinho e cerveja dá contenda
bem marcada na escaramuça ritual.

Beijos poeirentos nos embalam
suspensos nos lábios dos amantes
e já as mãos de arminho se instalam
na maciez dos tesos seios ondulantes.

O Pinelas já tremia, cacimbado,
com o reabastecimento na mão
correu para o alpendre, excitado
de tanto gozar, caiu no chão!

Olhos malandros no rosto adormecido
e a tonta sensualidade que me cativou
qual bom-bom gostoso e apetecido
que até as mágoas cínicas apagou.

O sortilégio dos afagos perdidos
ao luar íntimo da longa saudade
perdeu-se na razão sem sentido
que transformou a agonia em verdade.

Ternos espaços encurtam a distância
quando trocamos amargura por prazer;
quão irrequieta é a tua fragrância
que acaricia por dentro… e faz viver.

Alegrias e momentâneas amizades
ajudam a diluir o medo das emboscadas
neste rebuliço dos caniços-cidades
longe das balas na selva inseminadas.

Maianga, Abril de 1962
Joaquim Coelho
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