sexta-feira, 30 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 22


UM TERRÍVEL ABANDONO
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Ouvi o rumor do vento
atravessando as savanas...
enquanto descia a noite
o silêncio dos companheiros
abanou o milho das machambas
regadas com o sangue vermelho
que a morte verteu na fatídica hora!

Ninguém pode sair daqui p’ra fora!
os corpos esgotados...
abandonados na terra pardacenta
que cavámos para refúgio
das consciências tensas...
ali mesmo sente-se a morte lenta
a sugar o sangue derramado
amargurado sofrimento...

Todos perdem a própria razão
surdos ao rumor do vento!
Reprimimos a violenta respiração
e logo o dedo imprime a força
no gatilho percutor da morte.
Mais um que não teve sorte...

Sente-se uma estranha recusa
entrelaçada no vazio das ideias
que nos consomem em terra lusa!
Quero atirar fora estas peias
urdidas por escabrosos vultos
que nos querem assim matar...
joguetes de interesses ocultos
nem os mortos querem enterrar!

Napota-Nangade, 15 de Março de 1966
Joaquim Coelho
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... MORTE PELA ALVORADA
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Na trama da sinistra engrenagem
os sons livres na noite silenciosa
incomodam como a pérfida sensação
pousada sobre a cabeça em transgressão
lenta ousadia da revolta
que se atreve ao sacrílego sacrifício
inflamado no cano duma espingarda…

explode a dormência na destruição
dos corpos recusando o fatal destino
da vida presa na brisa da aragem
galopando contra a engrenagem.

O Pinto tomba no chão, baleado…
no vale de Miteda ensanguentado
proclamo a vida contra a morte
equivocado pelos surdos epitáfios
atirados contra a sanha da morte
que vai dizimando esta geração
com lágrimas no silêncio devassado,
sinistras sombras em convulsão.

Vencer a morte é um contra-senso
que da guerra leva mais o impulso
contra a razão pronunciada
no caminho do combate suspenso
à espera de cada nova alvorada!

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho


.. RÉSTIA DE SOL
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Percorro a inóspita selva bravia
resistindo às forças traiçoeiras
e ergo a esperança em cada dia
a minha réstia de sol ardente
a iluminar o bem na mente.

Árdua é a batalha da existência
nas noites com dias recortados
numa sensação de decadência:
muitas picadas armadilhadas
e o horror das vidas destroçadas.

Guerra imunda… um pesadelo
em cada trilho um imprevisto
tal é o medo de ficar no novelo
enrolado na ansiedade presente…
uma voragem que ninguém sente!

Mucojo, 20 de Abril de 1967
Joaquim Coelho
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... VÃO P’RO INFERNO
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A vileza que vem da retaguarda
também havemos de vencer
até a maldade dos poderes ocultos
encobertos nos tons da farda
hão-de rastejar e gemer
ao som dos merecidos insultos.

São tais os algozes do demónio
que não mostram arrependimento
vão p’ras profundezas do inferno
onde há-de arder o antónio
que nos trouxe este tormento
das emboscadas ao sono eterno.

Os incautos somos nós
bastardos da pátria sem norte
atirados para a guerra… sós
nestes caminhos da morte.

Sofremos o efeito da desgraça
e da traiçoeira metralha
o fatídico destino traça
em cada iníqua batalha
onde os corpos tisnados
à mercê das balas quentes
ficam caídos e esfrangalhados
sem sequer ranger os dentes.

Antes que a força se esfume
e me deixe nas savanas
vou arranjar fedorento estrume
para enterrar alguns sacanas
que nos fazem verter o sangue
e consentir a devassa da carne;
mesmo com o corpo exangue
peço à populaça que se arme.

A esperança jamais se esgota
nos dias de visível sofrimento;
liquidarei qualquer agiota
que me encurte o movimento.

As boas gentes da retaguarda
hão-de encontrar a coragem
de terem esperança e viver…
nós seremos a vanguarda
para acabar com a vilanagem,
avançar com a revolta e vencer.

Mueda, Janeiro de 1968
Joaquim Coelho
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