quinta-feira, 22 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 19


... CAMINHADA LONGA
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Uma nuvem de causar pavor
obscureceu meu pensamento
mas logo senti o sabor
daquela água providencial
deslizando nos pelos do bigode;
os dias passados na mata densa
são horas de intensa agonia
transportando os soldados feridos
para as terras de Macomia.

A caminhada longa, longa…
deixa o pensamento embrutecido
e os corpos cansados e tensos
rasgam o tempo no silêncio
da impiedosa progressão
enquanto o breu da noite
provoca murmúrios de inquietação.

Os rostos desfigurados
confundem-se no negrume da noite
que os olhos fitam rumo ao norte
corpos débeis, quase esqueletos
escapam à sanha da morte.

Pelo amanhecer do horizonte
agitam-se os caminhantes danados
com os sinais do acampamento
em palhotas sem vedações
que nos hão-de dar o acolhimento
para descansar das privações.

Mueda, Março de 1966
Joaquim Coelho

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... CURANDEIRO
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Hoje acordei sem réstia de memória!
senti uma tranquila paz
que me conforta dos dias amargos
e das ofensivas acções contra a história
deste tempo que não volta atrás…
a pátria sofre irreversíveis estragos.

Já não sinto a saudade...
dos afagos irrequietos duma mulher
nem sequer quero ir à cidade
onde se compra o amor que se quer.

Olho para o modesto cemitério
e vejo a morte em suspenso...
os mortos não estão enterrados
porque um avião de bom-senso
espera o embarque dos encaixotados.

Perante o infortúnio maldito
que se abate sobre esta geração
ouço os companheiros a desabafar
nas manhãs tranquilas, sem um grito
e sinto os amargos no coração
tantos que nos fazem chorar!

Envolvido neste espaço da bruma
com o silêncio… os gemidos de dor
e as bocas cheias de espuma,
vamos fomentar a paz e o amor
até ao clarear de qualquer dia
que nos envolva na serena alegria.

Caminho sobre o rumo da história
que uma pátria me anuncia
quando sinto despojada a memória
dos valores que a humanidade cria.

Agora que as mentes rasgam o mapa
dos encantados descobrimentos
pouco restará desta rude trapa
além das amarguras e tormentos:
mágoas nos corpos sofridos
que vão rasgando o pensamento
e as fráguas nos olhos humedecidos
rasgam espaço no rumo do vento.

Já pouco espero da trágica guerra…
dos olhos brotam as lágrimas tristes
que fazem desejar o regresso à terra
na convicção de que ainda existes.

É assim que eu iludo a memória
nesta vertigem das lágrimas perdidas
com os farrapos da nossa história
vamos curando as nossas feridas.

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho





... DEGREDO
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Quiseram cegar meus olhos...
tentaram prender-me a língua!

Quiseram matar meu pensamento
quiseram que eu quisesse
matar a sangue frio...
quiseram que eu dissesse
que um homem é um macaco
e vive nas águas do rio!

Para não esquecer a verdade
disseram que esta guerra
é uma justa realidade...
- combater os pobres da terra,
espalhar infortúnio e desgraça
até tem alguma graça!

Manipularam os pensamentos
deformaram-me as ideias
até reprimiram as vontades...
quiseram-me atrás das grades
desterrado de corpo e alma!

Mas o meu grito sem peias
fez-se ouvir como um trovão,
- um grito vindo do coração...
eco timbrado nos desagravos
desta vida insegura...
guerra sem lei, obscura.

Vai longe o tempo dos escravos
nesta terra que lhes pertence
a promessa de mais fartura
a mim já não convence!

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho
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...CANTEIRO DE FLORES
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Bem entendi o mistério
A desfilar nos teus olhos
E percebi o teu critério
Com muitas flores, aos molhos,
Muitas cores em movimento
A seduzir o meu pensamento.

Quis entrar no teu canteiro
Colher flores imaginárias
E cantar-te por inteiro
As melodias extraordinárias
No teu ventre percutidas
E intensidades interrompidas.

Continuámos os movimentos
Na leveza dos seios de veludo
Estremeciam os sentimentos
Com a magia do amor puro
Saciado no gozo infinito
Daquele enlace doce e bonito.

Beira, Março de 1967
Joaquim Coelho

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