quinta-feira, 15 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 18


... TEMPO INCERTO
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Estamos num tempo de temores!

Tempo de acção e sofrimento
tempo de consolidar os valores…
tempo de entender os sinais do vento.

Este tempo da guerra e da fome;
tempo de miséria e de choro
tempo de gente que não come…
tempo de luta contra a opressão
onde o combate perde o decoro
e a vida está na palma da mão.

Tempo de avançar no rumo certo
enquanto a juventude está forte:
tempo de abraçar o que está perto
e deixar as estradas da morte…
tempo da geração comprometida
com a liberdade presa, perdida.

Estamos no tempo sem tempo
para saborear as delícias da vida!

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
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...... CONVICÇÕES
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Só comigo o mundo não vai mudar!
mas sei que há outros iguais
vivendo em qualquer lugar
e convictos dos mesmos ideais.

No tempo de qualquer dia
há-de ocorrer um grande feito
que me encherá de alegria:
vai-se demolir a prisão
que trago dentro do peito.

E logo virá nos jornais:
acabou-se toda a nossa ansiedade,
os combatentes não morrem mais
chegou a almejada liberdade!

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho


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.. INFERNO EM MITEDA
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Jamais posso esquecer a bomba
que rebentou contra o cajueiro
e o estrondo que abafou o suspiro
que do soldado foi o derradeiro;
o corpo esfacelado, sem um grito,
indiferente ao estampido dos tiros,
ficou na transparência da sombra
onde explodiram as granadas…
com o horroroso grito de guerra
bem presente no vale de Miteda.

Esquecidos das notícias do dia
nos trilhos corremos o risco
de rasgar o resto dos camuflados
nos espinhos egoístas da guerra,
neurónios a rebenta pelas costuras
os corpos misturados com a terra
atordoados pelas amarguras
que nos roubam os pensamentos
e matam os meus lamentos.

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho
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.. NA TRINCHEIRA
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Os pássaros desafiam as estrelas pardas
sem saberem invocar as preces
que os deuses apreciam todos os dias.
Como podem usufruir das mordomias,
quando os soldados sentem os efeitos
dos estilhaços que marcam os corpos.

A inquietação confunde-se na vertigem
do trauma que as cicatrizes
deixam no pensamento que atesta
um confronto de estranhos matizes;
dentro da guerra que se detesta
perder uma perna é muito duro
porque se perdem também as raízes
e pressente-se a amputação do futuro.

Perde-se o melhor que a vida tem
e o significado para quem vive
é mais um trauma que não convém…
assustadora ameaça que não tive
mesmo entrincheirado dentro da liça
senti que a guerra não faz sentido
na forma de entender a justiça;
- a voz dos cães deixa-me ofendido.

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
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