segunda-feira, 12 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 17

.. GEOGRAFIA DA TUMBA
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Hoje aprendi coisas sérias em geografia:
a beleza das machambas cultivadas,
com melancias aquosas para a sede
- esta sede que consome o corpo
desgasta a mente e retira a percepção!

geografia dos olhares de cores graves
e o medo nos olhos dos inocentes,
geografia dos gestos com coragem
daqueles que voam como as aves...
geografia do medo acantonado
nos silêncios que nos rodeiam!

Geografia dos mortos enterrados
na indiferença pálida do poder
que nos abandona nesta agonia
- assim aprendemos a geografia!

Enquanto sentirmos pulsar o coração
nenhum de nós apodrecerá nesta terra,
nem o cansaço que nos aperta o peito
será motivo para perder a devoção
e esquecer os sinais da topografia
porque um poder com grave defeito
perdeu a memória da geografia!

Diaca, Outubro de 1966
Joaquim Coelho
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.. COMBATE DIRECTO
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Este jeito de escrever o fado
Que o tempo me faculta na vida
Tem o fascínio do amor sonhado
Na perfeição duma rosa florida.

Ténue é o sinal que desponta
Resultante da amálgama ácida
Que infunde as leis dos quanta
Girando com os anjos da galáxia.

O mundo com força criativa
Segue seu rumo em linha recta
Misturando a sensação emotiva
Neste contacto que me afecta.

Mantenho a razão catalisadora
Nos recipientes inertes e opacos
Mas a molécula-átomo propulsora
Dispara imparável contra os fracos.

A ironia do destino me apoquenta
Nos tempos incertos, conturbados,
Chafurdando na terra pardacenta
As vidas com destinos profanados.

Com esforço contra o afecto figurativo
Mas com amor e sincera gratidão,
Vou atenuando o sentimento negativo
Para aumentar a força da regeneração.

Assim combato a fétida letargia
Nesta tragédia de vida e de morte,
Vontade forte e cuidadoso na porfia
Contra a maldição dos trilhos do Norte.

Fechamos um ciclo de fatalidades
Para os corpos pétridos-virulentos
Vitimados nas suas tenras idades
Apodrecem ao calor do sol – nojentos.

Mueda, Outubro de 1966
Joaquim Coelho


... FORA DO JOGO
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Quando já não acredito na guerra
saio por aí à procura dos generais
daqueles que usam a inteligência
para nos afastarem do perjuro;
não vamos servir de brinquedos
e não sou soldado de chumbo
para se divertirem no jogo
das estratégias contraditórias.

Não queiram alcançar vitórias
que humilhem outras gentes…
podemos ser todos diferentes
para perceber a razão da vontade.

Procuro os homens corajosos
com ideias mais brilhantes
para acabar com os dias dolorosos
dos soldados infantes.

Nacala, Novembro de 1966
Joaquim Coelho
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.. PEDIDOS AO VENTO
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Desejo voltar ao cais de embarque
pedir aos deuses que o vento forte
me leve a navegar com arte…

esperar a suave brisa norte
vogando na mágica canoa…
sulcar o mar da esperança
acreditar que a viagem é boa
e corta a mágoa com a bonança!

Para que não vingue a sentença
daquela vontade casmurra,
a liberdade vai além da crença
de que tudo que mexe é “turra”.

Vou seguir a estrela refulgente
que ampara a leveza da vida…
acreditar na vontade da boa gente
sedenta da liberdade envolvida;

assim como quem acredita
neste caminhar na selva à toa
pedindo o fim da guerra maldita
para poder regressar a Lisboa.

Maúa-Niassa, Fevereiro de 1967
Joaquim Coelho
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