terça-feira, 6 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 16

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... A Caminho de MUEDA
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A vida extingue-se no desespero
que explode dentro de nós…
nas picadas de Mueda
por onde temos de caminhar
à mercê da morte violenta
- tão cruel que nos sufoca
e despedaça a vontade de lutar;

os corpos caindo esfacelados
em cada emboscada sangrenta
que os corpos agonizados…
as balas são imploráveis
e alucinam os nossos olhos
acordados com renovada atenção;

ecos da metralha e das explosões
acordam os fantasmas das florestas
e… para que não haja mais ilusões,
ficámos mais bravos que as bestas
que nos fuzilaram a esperança
de sonhar como uma criança.
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Mueda, Setembro de 1966
Joaquim Coelho
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.. DESESPERADOS
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A alvorada em desespero
deixou-nos muito desolados…
não dei mais sangue ao moribundo
porque jaze morto e desalmado
e nada o fará ressuscitar
do seu sono profundo!

Foi perfurado pelo estilhaço
que o matou lentamente
quando a morte apertou o laço
sem nos dar qualquer razão
para tanta desolação.

Agora limpamos os olhos
para banir todos os ódios
que nos querem impingir;

espero que estejas adormecido
e a terra te aconchegue o corpo
para não ficares esquecido
no nosso pranto de dor…

nesta terra dos Macondes
cobro-te com a última flor.
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Miteda, 26 de Julho de 1966
Joaquim Coelho






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... CONTORNAR O CAMINHO
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Olho o horizonte distante
sem vislumbrar o caminho
por onde possa regressar…
é tormentosa a falta do carinho
que me possa vir animar!

Mas se estás à minha espera
sem saber se o tempo conforta
as lembranças doutra era…
já perdi muito de mim
muito longe da tua porta!

Os devastadores conflitos
no mundo cada vez mais ruim
também nos põem aflitos…
dos mortos ainda ouço os gritos
e das crianças com fome
vem um sinal que me consome.

Crente na força da razão,
vou contornar os caminhos
que me enchem de espinhos
soltar as peias ao coração
e voar com os meus sonhos
fugir aos perigos medonhos
para que as ideias empedernidas
não me agravem mais as feridas.

Mueda, Novembro de 1966
Joaquim Coelho

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.. DIAS NO PLANALTO
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No planalto, terra dos macondes,
domina-se uma grave ansiedade,
ao escutar os últimos suspiros
das brutais explosões…
todos corremos como sentinelas
entrincheirados aos baldões.

Nas picadas viradas a Miteda
os homens ficam sem tempo
para apreciar a suave paisagem
e todo o seu vigor engalanado
em tons do verde da viagem
dos homens vestidos de camuflado,
acordados na manhã assustada
com minas a rebentar na estrada.

Cada alvorada é um pesadelo
para entender as coisas simples
que podem acalentar a coragem
e reforçar o ânimo dos homens
que acreditam nas estrelas
em cada noite que os consome
sem contemplar as coisas belas.
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Mueda, Julho de 1966
Joaquim Coelho
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