quinta-feira, 1 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 15




... HORAS TRÁGICAS
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Eis-me prostrado e ensanguentado
com o corpo descaído e esfacelado...
nem a violenta reacção me consola:
arremeço uma granada como esmola
contra a mortífera metralha inimiga;
nem a sombra do cajueiro a dor mitiga
neste meu corpo que lento se extingue
sem sequer dar um ai compensador!
Mas espero que o sofrimento mingue
para abater a raiva e a tormentosa dor.

Rebusco a força que me anima
e transfere a dor lá para o infinito...
digo a deus que lhe perdi a estima!
Nesta tragédia não ouviu meu grito
contra as bombas que deflagraram,
nem protegeu o corpo do Pinto
que os estilhaços dilaceraram!

Ainda circula o sangue que sinto
passar veloz nas veias tensas!
O tenente ferido e desmaiado,
está incapaz de dar sentenças...
vejo o seu rosto desfigurado
com estilhaços cortantes e quentes;
mais à frente, o cenário comovente:
soldados feridos... rangi os dentes
por ver um morto - herói inocente!

Avançou o Pessoa contra a desolação:
por via rádio, decretou a evacuação!

O Armindo, enfermeiro brioso,
enfrentou o trabalho, que era tanto,
com determinação e corajoso,
lá foi atenuando o nosso pranto.

Horas graves para esquecer
não fossem os mortos caídos...
aos feridos só lhes resta viver
mesmo com os sonhos traídos!

Miteda, 25-07-66
Joaquim Coelho
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... DESPOJOS DE GUERRA
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Não choreis os mortos, nem a tormenta
porque a esperança vive dentro de nós;
um segundo de vida frente à emboscada,
pode ser uma eternidade sufocante
mas é este o destino que nos espera
nas terras dos macondes e na savana
onde a dor amarga nos desespera.

O dilema está na honra a defender
e nos valores da pátria de cada um;
há uma verdade que temos a reter:
a nossa pátria está muito longe,
lá na outra banda do mar…

respirar o ar da selva africana
não nos dá o direito de conquistar
e transgredir as leis da razão serena
vivendo o destino a comer a poeira
espicaçada na cubata da morena.

Contemplamos a selva agreste
e sentimos a magia com esperança:
a saudade ataca forte como a peste
e os olhos choram como a criança…

a alegria da vida não volta mais
aos mortos abandonados na terra
porque a pátria sagrada dá sinais
de glorificar os despojos de guerra.

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho



... AMORTALHADOS
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Somos valentes caminhantes do sertão
que a África nos destinou a prazo…
envolvidos no prelúdio da escuridão
caminhamos nos sulcos já pisados
temendo a afronta das minas furtivas
como os combatentes desventurados.

Enquanto somos vivos desenganados
bebemos dos charcos apodrecidos
que servem de oásis nas savanas
nos dias sem chuva… adormecidos
com as vidas levemente estagnadas
aprontamos as vestes do caixão
descarregado da carlinga do avião.

Mueda, Julho de 1966
Joaquim Coelho
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... ESPERANÇA
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Os meus olhos fixados nas folhas
das árvores que o vento castiga
já sentem a agitação da intriga
lastimosa dos censores;

tentam adivinhar o imaginário
das palavras ainda sem voz,
vão oprimindo a vontade
de atirar para o papel abstracto
todas as razões dum ideário.

Num mundo tão desigual
colho as notícias da verdade
enquanto as folhas das árvores
me dizem em surdina:

- Os sinais são de esperança...
partirás em dia de bonança!

Beira, Janeiro de 1967
Joaquim Coelho
...

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