sexta-feira, 30 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 22


UM TERRÍVEL ABANDONO
.
Ouvi o rumor do vento
atravessando as savanas...
enquanto descia a noite
o silêncio dos companheiros
abanou o milho das machambas
regadas com o sangue vermelho
que a morte verteu na fatídica hora!

Ninguém pode sair daqui p’ra fora!
os corpos esgotados...
abandonados na terra pardacenta
que cavámos para refúgio
das consciências tensas...
ali mesmo sente-se a morte lenta
a sugar o sangue derramado
amargurado sofrimento...

Todos perdem a própria razão
surdos ao rumor do vento!
Reprimimos a violenta respiração
e logo o dedo imprime a força
no gatilho percutor da morte.
Mais um que não teve sorte...

Sente-se uma estranha recusa
entrelaçada no vazio das ideias
que nos consomem em terra lusa!
Quero atirar fora estas peias
urdidas por escabrosos vultos
que nos querem assim matar...
joguetes de interesses ocultos
nem os mortos querem enterrar!

Napota-Nangade, 15 de Março de 1966
Joaquim Coelho
««««««««««
.
... MORTE PELA ALVORADA
.
Na trama da sinistra engrenagem
os sons livres na noite silenciosa
incomodam como a pérfida sensação
pousada sobre a cabeça em transgressão
lenta ousadia da revolta
que se atreve ao sacrílego sacrifício
inflamado no cano duma espingarda…

explode a dormência na destruição
dos corpos recusando o fatal destino
da vida presa na brisa da aragem
galopando contra a engrenagem.

O Pinto tomba no chão, baleado…
no vale de Miteda ensanguentado
proclamo a vida contra a morte
equivocado pelos surdos epitáfios
atirados contra a sanha da morte
que vai dizimando esta geração
com lágrimas no silêncio devassado,
sinistras sombras em convulsão.

Vencer a morte é um contra-senso
que da guerra leva mais o impulso
contra a razão pronunciada
no caminho do combate suspenso
à espera de cada nova alvorada!

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho


.. RÉSTIA DE SOL
.
Percorro a inóspita selva bravia
resistindo às forças traiçoeiras
e ergo a esperança em cada dia
a minha réstia de sol ardente
a iluminar o bem na mente.

Árdua é a batalha da existência
nas noites com dias recortados
numa sensação de decadência:
muitas picadas armadilhadas
e o horror das vidas destroçadas.

Guerra imunda… um pesadelo
em cada trilho um imprevisto
tal é o medo de ficar no novelo
enrolado na ansiedade presente…
uma voragem que ninguém sente!

Mucojo, 20 de Abril de 1967
Joaquim Coelho
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... VÃO P’RO INFERNO
.
A vileza que vem da retaguarda
também havemos de vencer
até a maldade dos poderes ocultos
encobertos nos tons da farda
hão-de rastejar e gemer
ao som dos merecidos insultos.

São tais os algozes do demónio
que não mostram arrependimento
vão p’ras profundezas do inferno
onde há-de arder o antónio
que nos trouxe este tormento
das emboscadas ao sono eterno.

Os incautos somos nós
bastardos da pátria sem norte
atirados para a guerra… sós
nestes caminhos da morte.

Sofremos o efeito da desgraça
e da traiçoeira metralha
o fatídico destino traça
em cada iníqua batalha
onde os corpos tisnados
à mercê das balas quentes
ficam caídos e esfrangalhados
sem sequer ranger os dentes.

Antes que a força se esfume
e me deixe nas savanas
vou arranjar fedorento estrume
para enterrar alguns sacanas
que nos fazem verter o sangue
e consentir a devassa da carne;
mesmo com o corpo exangue
peço à populaça que se arme.

A esperança jamais se esgota
nos dias de visível sofrimento;
liquidarei qualquer agiota
que me encurte o movimento.

As boas gentes da retaguarda
hão-de encontrar a coragem
de terem esperança e viver…
nós seremos a vanguarda
para acabar com a vilanagem,
avançar com a revolta e vencer.

Mueda, Janeiro de 1968
Joaquim Coelho
..

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 21

Ó PÁTRIA MINHA

Minha Pátria, minha paixão,
sei que horas amargas virão
longe do tempo presente
com espaços vagos e ideias ignotas
acções audazes inevitáveis
nas límpidas forças do coração
aqui espalhadas nestas palhotas
onde os corpos com feridas irreparáveis
ao criador estendem a mão
em luta contra o tempo da desonra.

Ao sabor das virtudes ainda vivas
vou cavalgando sobre as savanas
sem piedade pela pátria moribunda
onde um dia sabujos escribas
dirão que estas atribulações insanas
foram causadas pela tropa imunda.

As caminhadas dos invisíveis corcéis
de rostos com lágrimas furtivas
ficarão para sempre ligadas
às balofas decisões dos coronéis
que urdiram as logísticas esquivas
e atiraram os soldados às emboscadas.

Ó pátria minha, do coração,
por ti, sinto a fúria da poeira
que me tolhe o corpo cansado,
tento fazer valer a minha razão
reclamando o fim da fogueira
até que o tormento seja extirpado.
Mueda, Agosto de 1967
Joaquim Coelho
>>>>>>>>
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... AI LIBERDADE
.
Depois de hoje, o amanhã
será um dia de vitória
e a nossa vivência temporã
será um marco nesta história.

Ninguém acredita que é o fim
porque é tenra a nossa idade
mas esta guerra chama por mim
serei mensageiro da liberdade.

O corpo expande-se pela savana
com o objectivo no horizonte
mas o dia parece uma semana
e esta geração bate-se de fronte.

Há sinais de mudança pelos cantos
onde caminhamos com esperança;
sairemos daqui heróis ou santos
mas sempre cheios de confiança.

Macomia, Julho 1967
Joaquim Coelho





... FANTASIAS
.
Abri a porta à fantasia que sinto
nos dias perdidos do sertão,
espaço ambíguo da solidão,
e logo o pensamento cai no labirinto
congeminado dum reino guardado
nas fronteiras do teu corpo inventado.

O gesto não interdita a infracção.
Mergulho na santa ingenuidade
que despertas em lúbricos desejos,
voluptuosas emoções exploradas,
cingido ao corpo da lubricidade
alcova coberta de pétalas e beijos
onde levitam os corpos entrelaçados
- encontro dos momentos sonhados.

Nacala, Junho de 1966
Joaquim Coelho
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... CHAMAMENTO…
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Se soubesse o que tens no peito
fugia desta solidão que me desgasta
e encontrava qualquer jeito
para te comunicar a mensagem
envolta no manto de incerteza;
terminava esta fantástica viagem
e corria ao sabor da natureza.

Sem ti, meu coração está triste
por não encontrar o caminho
e nem a esperança resiste
ao chamamento dum carinho...

Se ainda és a flor que eras,
vou procurar viver a fantasia
deste jardim de quimeras
até que te encontre algum dia!

Beira, Março de 1967
Joaquim Coelho
.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 7


JOAQUIM COELHO: “Diário de Um Sonhador”
Os pássaros desafiam as estrelas pardas sem saberem invocar as preces que os deuses apreciam. Como podem usufruir das mordomias, quando os soldados sofrem os efeitos dos estilhaços a marcar os corpos. A inquietação confunde-se na vertigem do trauma que as cicatrizes marcam no pensamento do futuro.
Para quem perde uma perna, numa guerra que detesta ou não compreende, pode significar a amputação de todo o futuro – não perde a vida mas já não vive. Esta ameaça é assustadora e limita a capacidade de viver por objectivos. Sinto-me ofendido no sentido em que concebo a justiça.
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... EM CIMA DO MEDO
.
Com os olhos fechados sem fingimento
aos corpos expostos ao sofrimento
estendo a mão sem nenhum remorso.
Corpos boiando em cima do medo
que a morte ilude sem nenhum segredo
nos dias de marcha e mochila no dorso.

Ameaças são muitas que o corpo sente
quando a metralha ataca de frente
e os soldados pressentem a morte
rompem o cerco aos tropeções...
acaba o sossego, com as explosões,
mas o corpo intacto agradece a sorte.

Levanto a bandeira ao som do batuque
que nos traz a magia fácil, um truque
para comemorar a grande vitória.
Ameaças são muitas aos antepassados
nos dias traiçoeiros de ventos trocados
morre a juventude, apaga-se a história.

Negage, Julho de 1962
Joaquim Coelho
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... CACIMBADOS
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Seres humanos a deambular
sem brio para reclamar...
debilitados, suspensos da vida
à mercê duma bala perdida.

Perturbados, moribundos
resignados, na sua dor...
desamparados, longe do amor
destemperado pela guerra.

Homens com meios sonhos
humildes, perdidos na terra...

os suplícios são medonhos
na condição de grave fraqueza;
por causa dum império perdido...
e na luta por falsa grandeza
fica este vexame escondido.

Madimba, Janeiro de 1962
Joaquim Coelho





... FASCINADO
.
O teu olhar meigo e fascinante
de cintilar maravilhoso
me enfeitiça em cada instante
que procuro teu corpo sedoso
a deambular com altivo primor
ao sabor das emoções
nas paisagens do amor…
é tão bom saber que a vida
oferta amor aos turbilhões
vindo da tua boca querida.

Tens um feitiço que me prende
aos beijos profundos e gostosos
quando a gente bem entende
cingir os corpos maviosos.

Temos o dom da sabedoria
gravado nos sentimentos
e a ternura sem fantasia
para acalmar os tormentos.

Luanda, Setembro de 1962
Joaquim Coelho
««««««««««
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CARTAS 5 - O dia de Natal passou por mim sem deixar um lampejo de alegria.
Mas o mundo há-de dar voltas e ser melhor no próximo Natal.
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... EU TIVE UM SONHO
.
Eu tive um sonho... e tu estavas lá!
Era um sonho tão belo
que vou procurar vivê-lo
no dia em que te possa encontrar.

Como andrajoso cavaleiro andante
é rude a vida que passa por mim
em busca da certeza para repousar
e retemperar as vitais energias
que o tempo obriga a desgastar.

Recuso a sorte dos maus dias
com pelejas furtivas e graves…
almejo a paz e o sossego da vida
para os caminhos mais suaves,
mas sou brindado com o desdém
das horas tristes sem medida
onde a saudade está também.

Toto, Março de 1962
Joaquim Coelho
.

sábado, 24 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 20


.... A CARAVANA
.
Os homens batem-se furiosamente
entre ideologias e densas florestas
criando plataformas de lutas
com engenhos e forças letais
que lançam para as sarjetas
os valores dos nobres ideais.

São cenários secos e tenebrosos
por onde avançam buliçosos
os comboios de viaturas verdes
que sacodem a poeira das picadas
seguindo os destinos dolorosos
à procura da paz nas sanzalas
perdidas nos confins do mato
entre a última lufada de balas.

Cada soldado sente a noite quente
com a artilharia lançando fogo
prevendo um forte envolvimento;
os nervos duros e rostos tisnados
no olhar movediço de emoção
deixam o destino ao pensamento
que se adivinha desejoso de voltar
fora dos caminhos da destruição.

São correrias e saltos incertos
com gestos bruscos e confusos
dentro do cenário da guerra…
tantos actores descompassados
com destinos breves e difusos
passados bem longe da sua terra
entre florestas de todas as cores
de olhos abertos, colhem flores.

Nangade, Agosto de 1967
Joaquim Coelho
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.
.... TRILHOS DA GUERRA
.
Aqui… com os soldados
sinto que não tenho ninguém
que perceba o meu sonho irreverente
de contida esperança!

A fantasia que me é ingrata
só traz amargura e sofrimento
e as saudades do meu tempo de menino
quando a minha mãe dava o alento
para caminhar alegre e seguro
sem temer os tempos do futuro!

Agora… nos trilhos da guerra
com o corpo acabrunhado
e a alma triste e desalenta
ando por aqui entre o capim
galgando as matas agrestes
e arrastando a pesada mochila.

Ai, se eu pudesse contar as paisagens
e a verdura das árvores engalanadas
sentado, como de costume,
no regaço de minha mãe…
não teria estas lágrimas amargas
nos olhos baços e toldados
pela última visão da guerra:
a morte levou dois soldados
para as profundezas da terra.

Mas eu hei-de voltar
antes que seja muito tarde…
hei-de pisar outros caminhos
e os campos semeados…
as crianças terão os meus carinhos
e eu dormirei de olhos fechados.

Será uma chegada deslumbrante
que acalmará os mais indecisos
nesta missão triunfante…
até as formosos violetas
vão festejar a vitória desta ventura
que vai queimar as horas mais pretas
de toda a minha desventura!

Nangade, Julho de 1967
Joaquim Coelho

... CONVICÇÃO
.
Isto não é um infortúnio
é a desgraça
de estarmos numa guerra
que o tempo não aceita
e o mundo se opõe...

Num dia luminoso
não muito tarde
com sol radioso,
veremos os nossos irmãos
as nossas namoradas
as nossas mulheres
as nossas mães...
os nossos amigos
em qualquer lugar do destino.

Numa alvorada
que não está longe
nascerá a esperança...
a realidade dos sonhos
e a vida a florescer
como um imenso clarão;
projectos medonhos
hão-de nascer
com a força dum vulcão.

Tudo está dentro de nós
pronto a expandir
as reprimidas emoções
energias em turbilhões
que hão-de explodir
e espalhar a liberdade

Um dia
viveremos a mocidade.

Mueda, Setembro de 1967
Joaquim Coelho
«««««««««««««««««
.
... CANÇÃO DE AMOR
.
Um sonho indeciso e vago
procurando a vida em cada dia
no caminho onde divago.

A vida fechada na solidão
é fruto do néctar da flor bela,
do pensamento sai o clarão
onde fico a contemplar
o rumo da celestial estrela
que me deixa aqui a penar!

Nas trevas da noite indecisa
há uma sombra maravilhosa…
a saudade…. canção de amor
na longínqua África sequiosa
vem ouvir esta canção de dor,
vem colorida e formosa!

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 19


... CAMINHADA LONGA
.
Uma nuvem de causar pavor
obscureceu meu pensamento
mas logo senti o sabor
daquela água providencial
deslizando nos pelos do bigode;
os dias passados na mata densa
são horas de intensa agonia
transportando os soldados feridos
para as terras de Macomia.

A caminhada longa, longa…
deixa o pensamento embrutecido
e os corpos cansados e tensos
rasgam o tempo no silêncio
da impiedosa progressão
enquanto o breu da noite
provoca murmúrios de inquietação.

Os rostos desfigurados
confundem-se no negrume da noite
que os olhos fitam rumo ao norte
corpos débeis, quase esqueletos
escapam à sanha da morte.

Pelo amanhecer do horizonte
agitam-se os caminhantes danados
com os sinais do acampamento
em palhotas sem vedações
que nos hão-de dar o acolhimento
para descansar das privações.

Mueda, Março de 1966
Joaquim Coelho

«««««««««««
.
... CURANDEIRO
.
Hoje acordei sem réstia de memória!
senti uma tranquila paz
que me conforta dos dias amargos
e das ofensivas acções contra a história
deste tempo que não volta atrás…
a pátria sofre irreversíveis estragos.

Já não sinto a saudade...
dos afagos irrequietos duma mulher
nem sequer quero ir à cidade
onde se compra o amor que se quer.

Olho para o modesto cemitério
e vejo a morte em suspenso...
os mortos não estão enterrados
porque um avião de bom-senso
espera o embarque dos encaixotados.

Perante o infortúnio maldito
que se abate sobre esta geração
ouço os companheiros a desabafar
nas manhãs tranquilas, sem um grito
e sinto os amargos no coração
tantos que nos fazem chorar!

Envolvido neste espaço da bruma
com o silêncio… os gemidos de dor
e as bocas cheias de espuma,
vamos fomentar a paz e o amor
até ao clarear de qualquer dia
que nos envolva na serena alegria.

Caminho sobre o rumo da história
que uma pátria me anuncia
quando sinto despojada a memória
dos valores que a humanidade cria.

Agora que as mentes rasgam o mapa
dos encantados descobrimentos
pouco restará desta rude trapa
além das amarguras e tormentos:
mágoas nos corpos sofridos
que vão rasgando o pensamento
e as fráguas nos olhos humedecidos
rasgam espaço no rumo do vento.

Já pouco espero da trágica guerra…
dos olhos brotam as lágrimas tristes
que fazem desejar o regresso à terra
na convicção de que ainda existes.

É assim que eu iludo a memória
nesta vertigem das lágrimas perdidas
com os farrapos da nossa história
vamos curando as nossas feridas.

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho





... DEGREDO
.
Quiseram cegar meus olhos...
tentaram prender-me a língua!

Quiseram matar meu pensamento
quiseram que eu quisesse
matar a sangue frio...
quiseram que eu dissesse
que um homem é um macaco
e vive nas águas do rio!

Para não esquecer a verdade
disseram que esta guerra
é uma justa realidade...
- combater os pobres da terra,
espalhar infortúnio e desgraça
até tem alguma graça!

Manipularam os pensamentos
deformaram-me as ideias
até reprimiram as vontades...
quiseram-me atrás das grades
desterrado de corpo e alma!

Mas o meu grito sem peias
fez-se ouvir como um trovão,
- um grito vindo do coração...
eco timbrado nos desagravos
desta vida insegura...
guerra sem lei, obscura.

Vai longe o tempo dos escravos
nesta terra que lhes pertence
a promessa de mais fartura
a mim já não convence!

Macomia, Abril de 1967
Joaquim Coelho
#########
.
...CANTEIRO DE FLORES
.
Bem entendi o mistério
A desfilar nos teus olhos
E percebi o teu critério
Com muitas flores, aos molhos,
Muitas cores em movimento
A seduzir o meu pensamento.

Quis entrar no teu canteiro
Colher flores imaginárias
E cantar-te por inteiro
As melodias extraordinárias
No teu ventre percutidas
E intensidades interrompidas.

Continuámos os movimentos
Na leveza dos seios de veludo
Estremeciam os sentimentos
Com a magia do amor puro
Saciado no gozo infinito
Daquele enlace doce e bonito.

Beira, Março de 1967
Joaquim Coelho

Lembrar Início da Guerra

Para que a memória não esqueça...


video

.. DESEMBARCADOS

Ah, como é medonho
o sofrimento dos soldados
que mandaram para o planalto…
abandonados!

Privados do imaginado sonho
de darem o salto
como o fazem os desertores
em demanda do sustento;
ou como os exilados e traidores
à deriva do cata-vento.

Os navios deixam-nos na costa
(Porto Amélia ou Mocímboa da Praia)
já com saudades da catraia,
sempre crentes na aposta
da longínqua ideia difusa
do regresso à pátria-lusa.

Habilidosos no desenrasca,
não se afoitam em valentia
por saberem que qualquer dia
a caravana se atasca.

Vivem tempos de privações
cercados de arame farpado
em dias de intensas aflições
com o inimigo marafado.
Sentem o desconforto do abrigo
que os protege da morteirada
e da metralha do inimigo
que ataca pela alvorada.

Mas… o que mais entristece
é ver tombar um companheiro
cujo corpo arrefece
à sombra do embondeiro.

Sinto a violenta combustão
da alma que reclama
contra a ingrata humilhação
do sono em tosca cama
- uma sepultura sem caixões
feita pela lua cheia
onde os corpos esfacelados
pelas explosões
são embrulhados
na tenebrosa teia.

Vou deixar de pintar a realidade
e juntar-me aos que vivem às escuras
longe das noites inacabadas.

Sim… vou fechar os olhos e deixar
que a lua mostre a verdade
da vida dentro das barricadas
com a saudade a mastigar
o que resta da alma pura…
onde, sem dó nem piedade
esperamos a última amargura.

Mueda, Novembro de 1967
Joaquim Coelho
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Poemas dos Tempo da Guerra 6

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.... FATALISMO
.
Vou partir para o mato!
na despedida não tenho ninguém
a dizer adeus…
olho á volta e fico espantado
com os apetrechos de guerra
horrorosos e desoladores,

os camaradas fumam despreocupados
sem se darem conta desta agonia
que nos causa melancolia.

É uma madrugada cacimbeira
os aviões roncam estrondosamente
com os motores potentes
e acordam a cidade sonolenta…

de dentro do avião que corre veloz
e levanta o focinho para o norte
deito um último olhar à base
e vejo as máquinas ferozes
de silhuetas sombrias
prontas a transportar a morte!

Começo a ficar indiferente
às coisas boas da cidade
que vai ficando cada vez mais longe…
faço parte deste cenário
onde companheiros de brumas
puxam lufadas de fumo
espalhadas no avião mercenário.

O meu último bocejo de esperança
faz-me parecer um corsário
nos meus tempos de criança!

Negage, Março de 1962
Joaquim Coelho
########
.
... NOITE INFERNAL
.
Esta mágoa em noite de cacimbo
martela lentamente o pensamento
no instante em que ruge o avião
partindo o silêncio com estrondo...
as bombas vomitando o fogo
que a combustão do napalm espalha
nas aldeias de fantasmas famintos
onde morrem todas as esperanças
da gente pobre e franzinas crianças
que tentam fugir de qualquer jeito
- vergonha da pátria sem o proveito!

Meus olhos brilharam de espanto
ao verem a sanzala em chamas.
ali sufocadas no calor das labaredas
estão as crianças de choro abafado,
bombas a rasgar sulcos nas veredas
por onde se arrastam os corpos
queimados num sofrimento danado.

Quando a consciência salta o orvalho
Por um lapso de tempo vejo o inferno
com as bombas riscando os céus...
o rebentamento de efeito medonho
rasga as palhotas com gente dentro
e o aniquilamento daquela sanzala
deixa-me preso à sequência da morte
com a garganta presa e sem fala.

Um cheiro intenso ataca as narinas
perdendo a seiva nas balas de fogo...
diluiu-se o medo do alastramento
de tantas queimadas feitas à toa,
o absurdo é de quem manda no jogo
está muito longe, talvez em Lisboa!

Onzo, Julho de 1962
Joaquim Coelho.

.
... INCERTEZA
.
Dor amarga na languidez do mundo
que tolhes o espírito benevolente…
deixa caminhar o corpo moribundo
causticado pelo vento das nortadas
vindo da lonjura das montanhas
engalanadas de sonhos perfumados;
deixa-me descobrir a solidão
que vai entrando pelas frestas
e castiga os pobres do sertão.

De Nambuangongo a Quicabo
os caminhos em declive sinuoso
deixam as poeiras tresmalhadas
asssombrar os horizontes distantes
onde disfarçamos esta agonia
dos sulcos na carne esfacelada
movida nos gestos comunicantes
dos combates em cada novo dia.

Afagando a espingarda em riste,
as mãos sentem os espinhos
cravados na dor longínqua
que se dissolve em torvelinhos…
o rosto coberto de pó, desfigurado,
segura os laivos de esperança
que trazem o coração aconchegado
aos meus sonhos de criança!

Quicabo, Julho de 1962
Joaquim Coelho
»»»»»»»»»

ENSEADA

A noite vem devagar…
ao longe
estão as enormes queimadas
majestosas labaredas a brilhar
desfazendo o capim descuidado!

Oiço além as batucadas
do chingufo a murmurar
marcando a magia do feitiço
que mexe as vidas trocadas
e só a saudade faz sonhar
com o fim de tanto enguiço.

Na enseada já vejo um navio...
a esperança do meu desejo
é navegar até ao tempo frio
levando comigo o último beijo.

As estrelas ficam nos teus olhos
como eu ficarei em ti
brilhantes como as lantejoulas
dos outros sonhos que já vivi.

Luanda, Janeiro de 1963
Joaquim Coelho

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 18


... TEMPO INCERTO
.
Estamos num tempo de temores!

Tempo de acção e sofrimento
tempo de consolidar os valores…
tempo de entender os sinais do vento.

Este tempo da guerra e da fome;
tempo de miséria e de choro
tempo de gente que não come…
tempo de luta contra a opressão
onde o combate perde o decoro
e a vida está na palma da mão.

Tempo de avançar no rumo certo
enquanto a juventude está forte:
tempo de abraçar o que está perto
e deixar as estradas da morte…
tempo da geração comprometida
com a liberdade presa, perdida.

Estamos no tempo sem tempo
para saborear as delícias da vida!

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
»»»»»»»»»»»»»»»»»»»
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...... CONVICÇÕES
.
Só comigo o mundo não vai mudar!
mas sei que há outros iguais
vivendo em qualquer lugar
e convictos dos mesmos ideais.

No tempo de qualquer dia
há-de ocorrer um grande feito
que me encherá de alegria:
vai-se demolir a prisão
que trago dentro do peito.

E logo virá nos jornais:
acabou-se toda a nossa ansiedade,
os combatentes não morrem mais
chegou a almejada liberdade!

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho


.
.. INFERNO EM MITEDA
.
Jamais posso esquecer a bomba
que rebentou contra o cajueiro
e o estrondo que abafou o suspiro
que do soldado foi o derradeiro;
o corpo esfacelado, sem um grito,
indiferente ao estampido dos tiros,
ficou na transparência da sombra
onde explodiram as granadas…
com o horroroso grito de guerra
bem presente no vale de Miteda.

Esquecidos das notícias do dia
nos trilhos corremos o risco
de rasgar o resto dos camuflados
nos espinhos egoístas da guerra,
neurónios a rebenta pelas costuras
os corpos misturados com a terra
atordoados pelas amarguras
que nos roubam os pensamentos
e matam os meus lamentos.

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho
><<<<<<<<<<<<<<<<<<
.
.. NA TRINCHEIRA
.
Os pássaros desafiam as estrelas pardas
sem saberem invocar as preces
que os deuses apreciam todos os dias.
Como podem usufruir das mordomias,
quando os soldados sentem os efeitos
dos estilhaços que marcam os corpos.

A inquietação confunde-se na vertigem
do trauma que as cicatrizes
deixam no pensamento que atesta
um confronto de estranhos matizes;
dentro da guerra que se detesta
perder uma perna é muito duro
porque se perdem também as raízes
e pressente-se a amputação do futuro.

Perde-se o melhor que a vida tem
e o significado para quem vive
é mais um trauma que não convém…
assustadora ameaça que não tive
mesmo entrincheirado dentro da liça
senti que a guerra não faz sentido
na forma de entender a justiça;
- a voz dos cães deixa-me ofendido.

Nacala, Dezembro de 1966
Joaquim Coelho
##############
.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 17

.. GEOGRAFIA DA TUMBA
.
Hoje aprendi coisas sérias em geografia:
a beleza das machambas cultivadas,
com melancias aquosas para a sede
- esta sede que consome o corpo
desgasta a mente e retira a percepção!

geografia dos olhares de cores graves
e o medo nos olhos dos inocentes,
geografia dos gestos com coragem
daqueles que voam como as aves...
geografia do medo acantonado
nos silêncios que nos rodeiam!

Geografia dos mortos enterrados
na indiferença pálida do poder
que nos abandona nesta agonia
- assim aprendemos a geografia!

Enquanto sentirmos pulsar o coração
nenhum de nós apodrecerá nesta terra,
nem o cansaço que nos aperta o peito
será motivo para perder a devoção
e esquecer os sinais da topografia
porque um poder com grave defeito
perdeu a memória da geografia!

Diaca, Outubro de 1966
Joaquim Coelho
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.. COMBATE DIRECTO
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Este jeito de escrever o fado
Que o tempo me faculta na vida
Tem o fascínio do amor sonhado
Na perfeição duma rosa florida.

Ténue é o sinal que desponta
Resultante da amálgama ácida
Que infunde as leis dos quanta
Girando com os anjos da galáxia.

O mundo com força criativa
Segue seu rumo em linha recta
Misturando a sensação emotiva
Neste contacto que me afecta.

Mantenho a razão catalisadora
Nos recipientes inertes e opacos
Mas a molécula-átomo propulsora
Dispara imparável contra os fracos.

A ironia do destino me apoquenta
Nos tempos incertos, conturbados,
Chafurdando na terra pardacenta
As vidas com destinos profanados.

Com esforço contra o afecto figurativo
Mas com amor e sincera gratidão,
Vou atenuando o sentimento negativo
Para aumentar a força da regeneração.

Assim combato a fétida letargia
Nesta tragédia de vida e de morte,
Vontade forte e cuidadoso na porfia
Contra a maldição dos trilhos do Norte.

Fechamos um ciclo de fatalidades
Para os corpos pétridos-virulentos
Vitimados nas suas tenras idades
Apodrecem ao calor do sol – nojentos.

Mueda, Outubro de 1966
Joaquim Coelho


... FORA DO JOGO
.
Quando já não acredito na guerra
saio por aí à procura dos generais
daqueles que usam a inteligência
para nos afastarem do perjuro;
não vamos servir de brinquedos
e não sou soldado de chumbo
para se divertirem no jogo
das estratégias contraditórias.

Não queiram alcançar vitórias
que humilhem outras gentes…
podemos ser todos diferentes
para perceber a razão da vontade.

Procuro os homens corajosos
com ideias mais brilhantes
para acabar com os dias dolorosos
dos soldados infantes.

Nacala, Novembro de 1966
Joaquim Coelho
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.. PEDIDOS AO VENTO
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Desejo voltar ao cais de embarque
pedir aos deuses que o vento forte
me leve a navegar com arte…

esperar a suave brisa norte
vogando na mágica canoa…
sulcar o mar da esperança
acreditar que a viagem é boa
e corta a mágoa com a bonança!

Para que não vingue a sentença
daquela vontade casmurra,
a liberdade vai além da crença
de que tudo que mexe é “turra”.

Vou seguir a estrela refulgente
que ampara a leveza da vida…
acreditar na vontade da boa gente
sedenta da liberdade envolvida;

assim como quem acredita
neste caminhar na selva à toa
pedindo o fim da guerra maldita
para poder regressar a Lisboa.

Maúa-Niassa, Fevereiro de 1967
Joaquim Coelho
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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 5


.. INSÓLITA INVASÃO
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A noite vai alta e agitada
toda a tropa se movimenta,
na pista bem mobilizada
uma bazukada se apresenta.

Uma invasão formigueira ataca
e logo os cães começam a ganir,
aí o sargento Ferreira destaca
a voz firme mandando fugir...

Ainda não vemos o inimigo
e já sentimos a voz da derrota,
pois ser herói é um perigo
e empenho na guerra é janota.

Sinto o queixo junto ao chão
e ouço gritos alucinantes,
atiço a raiva do meu cão
logo avançamos triunfantes.

Na incerteza das soluções...
recolhemos às toscas trincheiras,
abrandam os tiros dos canhões
e ali ficamos como as toupeiras.

S. Salvador do Congo, Janeiro de 1962
Joaquim Coelho
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... DESVARIO IMUNDO
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Aquele soldado rijo e afoito
crente em vingar o massacre
e abater os criminosos mentores
das mutilações escabrosas,
com violações animalescas,
e dos estripadores de inocentes,
não estava embriagado de raiva
mas com sentido de justiça!

Agora, mais calmo e sereno,
percebe a razão da sua sorte
e porque já sente o veneno
das degradantes confusões
que vão espalhando a morte!

Descoberto o covil dos ladrões,
esmoreceu a vontade de lutar
e enfrentar tantos perigos...
porque a Pátria é outro lugar
onde se passeiam os inimigos.

À sombra dos soldados destacados
para os confins do inferno...
desviam-se os víveres dos desgraçados
- alguns já dormem o sono eterno –
nos acampamentos do desterro
onde a vida é um grave erro!

Perante tanto desvario imundo
sinto que sou outra pessoa, atento
às notícias que mostram o mundo
moldado aos exploradores do vento
que vão surripiando esta terra...
e nós vivemos os males da guerra.

Mais cultivado e desperto p’ra vida
vou combater os mercenários
causa da nossa desgraça e morte.
Hei-de cumprir a sina prometida
para difundir os nobres ideários
e regressar a ti, por minha sorte.

Toto, Março de 1962
Joaquim Coelho


.. CARTA do LONGE
.
Aqui onde por descuido vivo, as coisas continuam insípidas e perigosas. Raros são os dias em que não lamentamos a morte de algum militar que enfrenta as vicissitudes da guerra. No entanto, continuo vivo e actuante, crente na bondade da natureza e nas virtudes que nos fazem viver para além do sofrimento. Minha querida, sempre tive esperança de que seremos recompensados com a desejada felicidade. Por isso não vamos desfalecer perante as barreiras que nos limitam as vontades.
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Estamos em viagem permanente
e não devemos renunciar à vontade
nem à esperança que a gente sente
para alcançar a plena felicidade.

Amar é vencer com afagos
aquilo que nos é querido
é caminhar sobre os lagos
quando a vida tem sentido.

A distância não nos pode fechar
nas encruzilhadas desta guerra
enquanto tiver forças para lutar
hei-de regressar à nossa terra.

E a glória de vencer com amor
está nas virtudes da esperança
que renovamos com fervor
até ao dia da esperada bonança.

O fluxo do sangue ardente
movimenta o coração sonhador
para o aconchego permanente
do meu único grande amor.

Chega de ingrata ausência
nesta sequidão desoladora
vamos reavivando a paciência
até chegar a ternura criadora.

Está próximo o dia sonhado
para que os corpos carentes
promulguem o fim do passado
e nos devolva os sonhos ardentes.

Luanda, Janeiro de 1963
Joaquim Coelho

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... NOITE DO MERENGUE
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Coisa boa, há festa no caniço,
coisa linda onde há magana
noite com mulata de feitiço
corpo em ritmo que não engana.

Sente-se o leve cheiro da mulenda
trespassando o ripanço do beiral
muito vinho e cerveja dá contenda
bem marcada na escaramuça ritual.

Beijos poeirentos nos embalam
suspensos nos lábios dos amantes
e já as mãos de arminho se instalam
na maciez dos tesos seios ondulantes.

O Pinelas já tremia, cacimbado,
com o reabastecimento na mão
correu para o alpendre, excitado
de tanto gozar, caiu no chão!

Olhos malandros no rosto adormecido
e a tonta sensualidade que me cativou
qual bom-bom gostoso e apetecido
que até as mágoas cínicas apagou.

O sortilégio dos afagos perdidos
ao luar íntimo da longa saudade
perdeu-se na razão sem sentido
que transformou a agonia em verdade.

Ternos espaços encurtam a distância
quando trocamos amargura por prazer;
quão irrequieta é a tua fragrância
que acaricia por dentro… e faz viver.

Alegrias e momentâneas amizades
ajudam a diluir o medo das emboscadas
neste rebuliço dos caniços-cidades
longe das balas na selva inseminadas.

Maianga, Abril de 1962
Joaquim Coelho
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terça-feira, 6 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 16

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... A Caminho de MUEDA
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A vida extingue-se no desespero
que explode dentro de nós…
nas picadas de Mueda
por onde temos de caminhar
à mercê da morte violenta
- tão cruel que nos sufoca
e despedaça a vontade de lutar;

os corpos caindo esfacelados
em cada emboscada sangrenta
que os corpos agonizados…
as balas são imploráveis
e alucinam os nossos olhos
acordados com renovada atenção;

ecos da metralha e das explosões
acordam os fantasmas das florestas
e… para que não haja mais ilusões,
ficámos mais bravos que as bestas
que nos fuzilaram a esperança
de sonhar como uma criança.
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Mueda, Setembro de 1966
Joaquim Coelho
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.. DESESPERADOS
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A alvorada em desespero
deixou-nos muito desolados…
não dei mais sangue ao moribundo
porque jaze morto e desalmado
e nada o fará ressuscitar
do seu sono profundo!

Foi perfurado pelo estilhaço
que o matou lentamente
quando a morte apertou o laço
sem nos dar qualquer razão
para tanta desolação.

Agora limpamos os olhos
para banir todos os ódios
que nos querem impingir;

espero que estejas adormecido
e a terra te aconchegue o corpo
para não ficares esquecido
no nosso pranto de dor…

nesta terra dos Macondes
cobro-te com a última flor.
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Miteda, 26 de Julho de 1966
Joaquim Coelho






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... CONTORNAR O CAMINHO
.
Olho o horizonte distante
sem vislumbrar o caminho
por onde possa regressar…
é tormentosa a falta do carinho
que me possa vir animar!

Mas se estás à minha espera
sem saber se o tempo conforta
as lembranças doutra era…
já perdi muito de mim
muito longe da tua porta!

Os devastadores conflitos
no mundo cada vez mais ruim
também nos põem aflitos…
dos mortos ainda ouço os gritos
e das crianças com fome
vem um sinal que me consome.

Crente na força da razão,
vou contornar os caminhos
que me enchem de espinhos
soltar as peias ao coração
e voar com os meus sonhos
fugir aos perigos medonhos
para que as ideias empedernidas
não me agravem mais as feridas.

Mueda, Novembro de 1966
Joaquim Coelho

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.. DIAS NO PLANALTO
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No planalto, terra dos macondes,
domina-se uma grave ansiedade,
ao escutar os últimos suspiros
das brutais explosões…
todos corremos como sentinelas
entrincheirados aos baldões.

Nas picadas viradas a Miteda
os homens ficam sem tempo
para apreciar a suave paisagem
e todo o seu vigor engalanado
em tons do verde da viagem
dos homens vestidos de camuflado,
acordados na manhã assustada
com minas a rebentar na estrada.

Cada alvorada é um pesadelo
para entender as coisas simples
que podem acalentar a coragem
e reforçar o ânimo dos homens
que acreditam nas estrelas
em cada noite que os consome
sem contemplar as coisas belas.
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Mueda, Julho de 1966
Joaquim Coelho
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 15




... HORAS TRÁGICAS
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Eis-me prostrado e ensanguentado
com o corpo descaído e esfacelado...
nem a violenta reacção me consola:
arremeço uma granada como esmola
contra a mortífera metralha inimiga;
nem a sombra do cajueiro a dor mitiga
neste meu corpo que lento se extingue
sem sequer dar um ai compensador!
Mas espero que o sofrimento mingue
para abater a raiva e a tormentosa dor.

Rebusco a força que me anima
e transfere a dor lá para o infinito...
digo a deus que lhe perdi a estima!
Nesta tragédia não ouviu meu grito
contra as bombas que deflagraram,
nem protegeu o corpo do Pinto
que os estilhaços dilaceraram!

Ainda circula o sangue que sinto
passar veloz nas veias tensas!
O tenente ferido e desmaiado,
está incapaz de dar sentenças...
vejo o seu rosto desfigurado
com estilhaços cortantes e quentes;
mais à frente, o cenário comovente:
soldados feridos... rangi os dentes
por ver um morto - herói inocente!

Avançou o Pessoa contra a desolação:
por via rádio, decretou a evacuação!

O Armindo, enfermeiro brioso,
enfrentou o trabalho, que era tanto,
com determinação e corajoso,
lá foi atenuando o nosso pranto.

Horas graves para esquecer
não fossem os mortos caídos...
aos feridos só lhes resta viver
mesmo com os sonhos traídos!

Miteda, 25-07-66
Joaquim Coelho
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... DESPOJOS DE GUERRA
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Não choreis os mortos, nem a tormenta
porque a esperança vive dentro de nós;
um segundo de vida frente à emboscada,
pode ser uma eternidade sufocante
mas é este o destino que nos espera
nas terras dos macondes e na savana
onde a dor amarga nos desespera.

O dilema está na honra a defender
e nos valores da pátria de cada um;
há uma verdade que temos a reter:
a nossa pátria está muito longe,
lá na outra banda do mar…

respirar o ar da selva africana
não nos dá o direito de conquistar
e transgredir as leis da razão serena
vivendo o destino a comer a poeira
espicaçada na cubata da morena.

Contemplamos a selva agreste
e sentimos a magia com esperança:
a saudade ataca forte como a peste
e os olhos choram como a criança…

a alegria da vida não volta mais
aos mortos abandonados na terra
porque a pátria sagrada dá sinais
de glorificar os despojos de guerra.

Miteda, Julho de 1966
Joaquim Coelho



... AMORTALHADOS
.
Somos valentes caminhantes do sertão
que a África nos destinou a prazo…
envolvidos no prelúdio da escuridão
caminhamos nos sulcos já pisados
temendo a afronta das minas furtivas
como os combatentes desventurados.

Enquanto somos vivos desenganados
bebemos dos charcos apodrecidos
que servem de oásis nas savanas
nos dias sem chuva… adormecidos
com as vidas levemente estagnadas
aprontamos as vestes do caixão
descarregado da carlinga do avião.

Mueda, Julho de 1966
Joaquim Coelho
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... ESPERANÇA
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Os meus olhos fixados nas folhas
das árvores que o vento castiga
já sentem a agitação da intriga
lastimosa dos censores;

tentam adivinhar o imaginário
das palavras ainda sem voz,
vão oprimindo a vontade
de atirar para o papel abstracto
todas as razões dum ideário.

Num mundo tão desigual
colho as notícias da verdade
enquanto as folhas das árvores
me dizem em surdina:

- Os sinais são de esperança...
partirás em dia de bonança!

Beira, Janeiro de 1967
Joaquim Coelho
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