terça-feira, 29 de junho de 2010

Poemas do Tempo da Guerra 4

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... SALTO NO ESPAÇO
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Embarco ao entardecer…
em busca da ventura pressentida
montado no corcel do pensamento
e no ar… com a vida reflectida
na encruzilhada do vento.

O espaço nublado me repele
para o avião que voa longe
e fica num contínuo vaivém!
Recordo o tempo de alguém
que ficou na minha terra
a quem chamo mãe…
e eu, em forma de pássaro
encharcado… na guerra!

Embarco audaciosamente
com a satisfação de vencer
a sensação de medo…
airosamente, salto no espaço
sem qualquer segredo…
alguém me estende o braço
na madrugada do meu querer,
é a ventura…
nas terras de Angola
começo a reviver
uma longa amargura!

Luanda, Dezembro de 1961
Joaquim Coelho
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.. MANHÃ CHOROSA
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A manhã acordou chorosa!
Já o sol se afirma no horizonte
e eu busco a sombra majestosa
do embondeiro amigo da gente.

A dolorosa notícia agrava as dores
e interrompe o merecido descanso:
sete soldados dos briosos caçadores
foram pelos ares, despedaçados...
com o jeep que accionou uma mina,
logo na hora que o diabo determina!

Fomos em socorro dos desgraçados
que antes uns dias vimos felizes
em camaradagem, juntos no Bembe,
com a prontidão evitámos deslizes;
encontrámos fumegantes destroços
bocados de corpos espetados no chão
fugindo do fogo, os soldados moços
estavam aturdidos pela confusão.

Uma tarde triste, fim de dia choroso
e o traumatizante esmorecimento
contaminou todos os corações;
ninguém foge ao sentir doloroso
mesmo disfarçando as emoções...
escapam-se as lágrimas silenciosas
nos rostos de semblantes marcados
e as opiniões cortantes como lâminas
acirram a raiva contra os culpados!

Sentimos a dor e o grave aviso
- a guerra já galgou mais um friso.

Toto, Abril de 1962
Joaquim Coelho


.. LONGÍNQUO HORIZONTE
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Confirma-se o encontro dos corpos
em desejos convergentes
gestos profundos, longos prazeres
tão intensos que os nossos olhos
se perdem na lascívia das bocas;

um gozo louco que nos atrai
nesta escuridão amansada...
uma intensa infusão de amores
envolvendo a paixão extasiada.

Com afecto ofereço a gratidão
no momento do merecido devaneio,
esse enredo tecido no coração
é como a esperança do meu rodeio.

A tua imagem emerge na saudade
e o meu rosto escreve solidão…
sei que é grande a tua bondade
e não deixarás de me dar razão.

No meu silêncio... exposto ao sol
que ofusca o longínquo horizonte
lá no mar cor do arrebol
ainda não vejo azimute que aponte
o caminho à caravela arfando
mas o suspiro com voz dolente
escuto-o de vez em quando
no bater deste coração que sente...

E ao som do mais lindo poema
que os meus lábios cantassem
no sonho que tenho presente
da tua boca pequena
límpidos os teus me beijassem.

Negage, Novembro de 1962
Joaquim Coelho
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.. MÍSTICOS ANSEIOS
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A alegria de viver sem desalento
alimenta os corpos sedentos de amor
que nesta selva, em cada momento,
se batem pela vida com fervor.

Vós, que buscais místicos anseios
derrotando os dias de mais tristeza,
bem mereceis as carícias dos seios
que vos oferecem na alva beleza.

Mas este destino que nos abraça
na gratidão fantástica do querer,
faz parte da vontade que nos enlaça
na patriótica condição de combater.

A vida é dura… com lamentos,
muita esperança e com bondade
venceremos os inóspitos ventos
que tolhem a almejada felicidade.

Luanda, Dezembro de 1961
Joaquim Coelho
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